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O INFERNO SÃO OS OUTROS – 100 anos do nascimento de Jean-Paul Sartre

06 jul

Caricatura do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre por S. Quimas

Caricatura do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre por S. Quimas

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”.

Paris do início do século XX, sentado em torno de uma mesa, em um dos muitos cafés no Quatier Latin, você poderia encontrar um grupo agitado e falante de pessoas em acalorada discussão. Entre os membros deste grupo, um destacava-se já de pronto ao espectador, devido à sua cara-de-sapo, com olhos grandes e estrábicos, atrás de óculos grossos montados numa armação preta.

Jamais você adivinharia num primeiro contato, que essa figura esquisita fosse uma das mentes mais brilhantes do século passado.

No ano de 1905, marcado por fatos como a morte de Julio Verne, pai da ficção científica, a guerra entre russos e japoneses, que leva a destruição de toda a armada russa na Batalha Naval de Tshusima, o antológico motim no encouraçado russo Potemkin, em que a tripulação se rebela e fuzila o comandante e vários oficiais, fato que posteriormente leva à condenação dos oitenta marinheiros à morte, as revoltas na Polônia e na Rússia que deixam atrás de si milhares de mortos, a ratificação pelo parlamento francês da lei que separa o Estado da Igreja, a separação entre a Suécia e a Dinamarca através de um plebiscito, a publicação por Albert Einstein da sua Teoria da Relatividade, a rebelião dos soldados da Fortaleza de Santa Cruz, no Rio, contra os maus-tratos, que culminou na morte de um major, um tenente e um sargento, a fundação do Sinn Fein, precursor do IRA (Exército Republicano Irlandês) e por tantos outros fatos, nasce em Paris Jean-Paul Sartre, no dia 21 de junho.

Seu pai, um oficial da marinha, morreu precocemente e aos dois anos de idade, ele e sua mãe, Anne-Marie Schweitzer, foram morar na casa do seu avô materno, Carl Schweitzer, tio do famoso pastor e organista de Bach Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz de 1952.

Foi na atmosfera do apartamento do avô materno, nos arredores do Jardim de Luxemburgo, que cresceu o menino Jean-Paul, embalado pelas histórias contadas pela mãe, com quem mantinha uma relação mais fraternal do que filial. Nessa época enchia folhas de papel com histórias de espadachins, demonstração de sua genialidade, que não passou desapercebida aos familiares.

Iniciou seus estudos no Liceu Henrique IV, em Paris e, após o segundo casamento da mãe com Joseph Mancy, muda-se para La Rochelle, onde cursa o liceu local. Nesta época, Sartre contava doze anos de idade.

A sua biografia revela que as relações entre Sartre e o padrasto não eram muito auspiciosas e que o futuro filósofo tinha-o como exemplo do típico burguês, imagem que lhe causaria aversão durante toda a sua vida, quanto, também, do padrasto perverso.

Em 1924, vai estudar na École Normale Supériure, educandário onde encontra a mulher que lhe seguiria durante todo o restante da sua existência, a escritora e feminista Simone de Beauvoir (1908-1986). Na École Normale convive com grandes futuros intelectuais franceses, como Raymond Aron (1905-1983), Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), Emmanuel Mounier (1905-1950), Claude Lévi-Strauss (1908-) e Simone Weil (1909-1943), graduando-se em filosofia no ano de 1929.

Após a formatura, Simone de Beauvoir, que tornara-se amante de Sartre durante o período na École, passa a lecionar e Jean-Paul presta o serviço militar em uma estação meteorológica, em Tour, durante dezoito meses. Encontravam-se nos finais de semana.

A relação de Sartre e Simone era o que se chamaria em nossos dias, uma “relação aberta”, onde ambos tinham eventualmente outros parceiros sexuais, porém moldada em uma fidelidade espiritual absoluta, em que exporiam um para outro tudo o que se passasse em suas vidas, inclusive os casos fortuitos.

Antes de partir para Berlim (1933–1934), onde estudou a fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938), as teorias existencialistas de Heidegger e Karl Jaspers (1883-1969) e a filosofia de Max Scheller (1874-1928) e, finalmente, Kierkegaard (1813-1855), um dos que mais contribuíram para o desenvolvimento do existencialismo sartriano, Sartre leciona no Liceu do Havre (1931-1933). Entre 1933 e 1934 vai à Alemanha, em Berlim, estudar fenomenologia. Retornando da Alemanha, volta ao Havre, indo depois para Neuilly-sur-Seine (1934 e 1939).

Na época em que lecionou no Havre, Sartre publicou suas primeiras obras, “A Imaginação” (1936) e “A Transcendência do Ego” (1936) e foi durante a estada na Alemanha que Jean-Paul Sartre esboçou, o que por persuasão de Simone de Beauvoir, culminaria no romance “Melancolia”, de inicio recusado pelos editores e mais tarde publicado com o título “A Náusea” (1939). “Le Nausée” foi aclamado pela crítica, trazendo-lhe reconhecimento e fama.

Também, em 1939, “Esboço de uma Teoria das Emoções”, obra que não teve a repercussão da anterior, mas que lhe firma no meio intelectual e “O Muro”, uma coletânea de contos.

Em 1940, publica “O Imaginário: Psicologia fenomenológica da Imaginação”, um ensaio. E neste mesmo ano, cai prisioneiro dos alemães, indo para o campo de concentração em Trier, próximo à fronteira com Luxemburgo. De lá, só conseguiu se libertar na primavera de 1941, usando um falso atestado médico. Nesse período Sartre aprofunda seus estudos de Heidegger.

Uma vez livre, retorna magistério no Liceu de Neuilly e depois leciona no Liceu Condorcet e no Liceu Pasteur, em Paris. Funda nessa época o grupo Socialisme et Liberté, que atua junto à Resistência Francesa. O grupo imprimiu panfletos clandestinos contrários à ocupação nazista e opondo-se aos colaboracionistas franceses.

Publicou em 1943, a peça “As Moscas” e o seu livro mais famoso “L’Être et le Néant” (“O Ser e o Nada”). Neste último livro, Sartre aprofunda seus conceitos sobre a consciência humana e causa tremendo reboliço nos círculos intelectuais franceses.

Um ano depois, publica a peça teatral “Huis-Clos” (“Entre Quatro Paredes”), que junto com “O Ser e o Nada”, tornou Sartre o escritor francês mais célebre da sua época.

Após dissolver o grupo Socialismo e Liberdade, em 1945, Jean-Paul Sartre se une à Simone de Beauvoir, Raymond Aron, Merleau Ponty e outros intelectuais da época e funda a revista de filosofia “Les Temps Modernes” (“Os Tempos Modernos”), abandonando o magistério.

A revista foi o canal propício para exposição das idéias de Sartre na França e no mundo, acirrando os ânimos direitistas que queriam sua cabeça. Porém, tinha como seu maior defensor nada mais nada menos que Charles DeGaulle, presidente francês do pós-guerra, que via Sartre como um gigante da história, chegando a afirmar que não se poderia “prender Voltaire”, comparando Sartre ao grande escritor e filósofo do iluminismo francês.

O processo da guerra produziu uma grande mudança em Sartre (“A Guerra dividiu a minha vida em duas”), levando a sua filosofia a uma abordagem integrada ao conceito de responsabilidade social. Também em 1945, além da revista, Sartre passa a publicar uma novela em quatro volumes sob o titulo “Les Chemins de la Liberté” (“Os Caminhos da Liberdade”) dos quais publicou três: “L’Âge de Raison” (“A Idade da Razão” – 1945), Le Sursis (“Sursis” – 1945) e La Mort dans L’Âme (“A Morte na Alma” – 1949).

Em 1946, além dos ensaios “O existencialismo é um Humanismo” e “Reflexões sobre a Questão Judaica”, publica as peças de teatro “Mortos sem Sepultura” e “A Prostituta Respeitosa”.

Nos anos seguintes, continua publicando diversas peças: “Les Mains Sales” (“As mãos Sujas” – 1948), além de “Le Diable et le Bon Dieu” (“O Diabo e o Bom Deus” – 1951), “Nekrassov” (1955) e “Les Séquestrés d’Altona” (“Seqüestrados de Altona” – 1959), também, um livro, “Baudelaire” (1947), um script de cinema, “Os Dados Estão Lançados” (1947), um estudo sobre o escritor e poeta francês Jean Genet,”Saint Genet, Comédien et Martyr” (1952), “O Fantasma de Stalin” (1956) e diversos artigos para o jornal “Les Temps Modernes”, que durou até 1955, quando se desentende com Merleau-Ponty.

Na década de 60, publica “Critique de la Raison Dialectique” (“Crítica da Razão Dialética” – 1960), o ensaio “Questão de Método” (1960) e “Les Mots” (“As Palavras” – 1964).

Les Mots” lhe confere o Prêmio Nobel de Literatura, ao qual recusa.

Em 1971, publica dois volumes (2130 páginas) de quatro planejados, de um estudo sobre o escritor francês Gustave Flaubert. Um terceiro volume sob o título “L’Idiot de la Famille” (“O idiota da família”) aparece em 1972.

A saúde de Sartre decresce durante toda a década de 70, preço que pagou pelo uso durante a vida de estimulantes químicos, como a mescalina. Também é subjugado pela cegueira nos últimos anos. No dia 15 de abril de 1980, morre aos setenta e quatro anos, vitimado por um tumor pulmonar. Ao seu enterro acorrem mais de vinte e cinco mil pessoas, cujo cortejo percorre o Quartier Latin e a Rive Gauche, os principais lugares em que vivera em Paris.

Existencialismo e Sartre

“Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem”.

O Existencialismo não é algo que se distinga com muita clareza e, mesmo em filósofos antigos e em textos como a própria Bíblia, de vocação altamente essencialista, encontramos traços deste modo filosófico.

Esta corrente filosófica é voltada explicitamente para o homem e suas questões, fundamentalmente antropológica e o seu principal postulado é o pressuposto de que a existência precede a essência.

No Existencialismo há uma preocupação com a individualidade, o sentido e os objetivos da vida humana e não com as “verdades”, sejam científicas ou metafísicas. Há uma valorização da subjetividade, da experiência interior.

Outro postulado interessante do Existencialismo é a afirmação que o homem não foi “planejado” para um fim determinado, mas constrói-se durante a sua própria existência.

A postura existencialista frente à compreensão do mundo, é que ele é “irracional e absurdo” e não somos capazes de compreendê-lo plenamente.

A liberdade conseqüente do indeterminismo, o “no sense” da vida, a possibilidade constante do sofrimento, a descrença, a liberdade individual como maior “propriedade distintiva” humana e da qual “não podemos fugir”, são fundamentos básicos dentro da compreensão existencialista do mundo.

O existencialismo moderno surge com o filósofo dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855), que em oposição à postura determinista de Hegel (1770-1831), dá ênfase ao “indivíduo” e às suas escolhas, sejam estas racionais ou irracionais.

A visão de Kierkegaard se amplia no filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), que foca a precariedade da existência humana, que perambula pela Terra entre o momento de seu nascimento e o da sua morte, a qual não pode evitar. O homem transita entre o seu passado, através de suas memórias e o seu futuro, o qual foge ao seu controle e define a impossibilidade da complementação de seu projeto devido à morte inevitável.

De certa forma isto nos remete, dentro de certos limites, à proposição védica que aponta como as quatro grandes desgraças: o nascer, a doença, a velhice e a morte. O nascer, pois nos submete a todo este processo que é a vida. Sobre a doença não é necessário qualquer comentário. A velhice, pois nos limita a ação. E, finalmente, a morte, pois faz com que abandonemos forçosamente nossos projetos, deixando-os inacabados.

O Existencialismo sartriano tem por fundamento a compreensão do indeterminismo dentro de sua forma mais exaltada. Sendo ateísta e, assim, na ausência de um deus e um plano divino, nada é determinado. Dono de sua liberdade, o homem não pode se omitir frente à sua responsabilidade perante às suas realizações.

O ateísmo de Sartre remonta à sua infância, quando aos doze anos, tem um vislumbre de que não havia Deus: “uma verdade que me surgira com evidência, sem nenhum pensamento prévio… um pensamento que intervém bruscamente, uma intuição que surge e determina a minha vida”. Em “O Ser e o Nada” Sartre expõe as razões deste ateísmo.

Apesar de todo o individualismo presente nas conjecturas filosóficas existencialistas, em Sartre, ele ganha, principalmente após a II Guerra Mundial, conotações sociais, apontando ao indivíduo a necessidade de fundamentar os princípios de sua liberdade levando em conta a responsabilidade de suas ações e o seu engajamento. O homem é totalmente livre para escolher seus caminhos (não há determinismo), mas não pode agir usando de má-fé, fugindo da sua responsabilidade.

Para o leitor que deseja se aprofundar na obra de Sartre, sugerimos que leia os livros citados neste texto e também a obra “Sartre: Philía e Autobiografia”, de Deise Quintiliano.

S. Quimas

O INFERNO SÃO OS OUTROS – 100 anos do nascimento de Jean-Paul Sartre (Biografia e filosofia do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre, escrita por S. Quimas (Osvandil Silveira Quimas), originalmente publicada no jornal Atuar – Educação e Cultura, Novembro de 2005 — Ano 1 — Nº 2. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.).

 
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Publicado por em julho 6, 2011 em Biografias, Ensaios

 

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