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Arquivo mensal: fevereiro 2016

As sombras das incertezas

Gustavo Courbet - Autorretrato

Gustavo Courbet – Autorretrato

As sombras das incertezas,
O tudo que não se declara,
O vir a ser e o nada.
Tudo vão,
Tudo imensamente nada.
O porquê de tudo,
O porquê de nada.
O simplesmente assim,
Um sem fim.
Gestos e palavras
E razão nenhuma.
Sombras de nós mesmos,
Arremedo de existências.
Dúvida e nada mais.
Por que seguir,
Se os caminhos são pedras
Que nos acutilam?
A poesia flui,
Mas eu estou paralisado.
Quem não está?
Já não ando
E nada em mim se aproveita.
Cego, já não vejo
E toda minha virtude é apenas viver.
Meus olhos se obscurecem,
Pois não veem mais.
A cegueira me domina,
Sou apenas um trôpego.
Mal caminho os horizontes indecifráveis
Da minha destruição.
Possa ser que faça canção,
Mas poesia não mais.
Tudo isso é dor,
A mais lancinante de todas
E sofro de tudo isso.
Sei de mim e nada mais.
Sei o que sofro.
E quem não?
Todos.
A diferença é que faço do sofrimento poesia.
Há quem se emocione,
Há quem objete.
Poesia é letra,
Uma infinitude de palavras
Muitas vezes sem o menor sentido.
Queria eu falar da aurora,
Mas o sol tarda em nascer.
Seria eu mais poeta
Por falar de coisas razoáveis?
Talvez melhor
Por jamais confessá-las…
Minha alma é um mundo inundado de sentimentos,
Algo tão desarrazoado,
Que jamais ciência ou filosofia
Há de resolver,
Quanto mais explorar.
A dúvida chega.
A loucura se espraia.
Serei em algum tempo razão?
Não.
Sou apenas o que sou
E nem um pingo a mais.

S. Quimas

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Publicado por em fevereiro 18, 2016 em Poesia

 

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A partir de agora declaro, como rei da minha consciência

Vasily Tropinin - Velho Mendigo (1823)

Vasily Tropinin – Velho Mendigo (1823)

A partir de agora declaro, como rei da minha consciência,
Que nunca se condene um beijo na boca de quem se ame.
Nem que toda a podridão do mundo grite e berre avessa,
Nem que falanges que se desacreditam de si mesmas se oponham,
Nem que tudo isso seja apenas o tudo que penso e nada mais.
Não importa, pois assim, em minha insana consciência,
Faço de tudo e de minhas falácias simplesmente assim decreto.
Que o degredo dos sábios seja motivado pelas estultícias dos estúpidos
E jamais pela consentida conivência, pela cumplicidade dos interesses.
Que se acalmem as águas, abaixo e acima dos céus,
Que caiam as máscaras e todos os véus se rompam em definitivo.
Que não haja mais segredos e nem verdades suprimidas,
Mas em que todo mínimo gesto haja simplesmente naturalidade.
Que não sejamos nossas parcas crenças e meras suposições,
Porém nossa mais simples e ínfima constatada verdade:
Apenas nós.
Que rompamos com os dizeres a nós muito ditos,
Que saibamos em nós mesmos os tantos infinitos
Que somos.
Que seja a dúvida a nossa vertical certeza
E somente o que de fato vivemos, a nossa fé.
Assim, simplesmente, o vivermos
E nos apaixonarmos pelo tempo de nossa existência,
De nossa real presença e assim gozarmos de vida.
Admito a ilusão e o devaneio, sou companheiro dos delírios…
Só não admito a morte, enquanto vivo,
De jamais sonhar.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 16, 2016 em Poesia

 

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Meus melhores poemas são curtos e grossos

Rembrandt van Rijn - A ressurreição de Jesus

Rembrandt van Rijn – A ressurreição de Jesus

Meus melhores poemas são curtos e grossos.
Quase frases, balbucios…
Muitas síncopes e silêncios,
Palavras que dizem algo indefinível,
Coisas de significado duvidoso,
Absurdos e controvérsias,
Esgares de uma insanidade impublicável.
Mas são poemas.
O fino extrato
Da mais imensa poesia.
O que lhes falta em sílabas, rimas e versos,
Transbordam-lhes em sensibilidade.
Minha mente não é reta,
Deveria ter dito tal
Em confissão a um padre obscuro
Encarcerado em sua gaiola no confessionário,
Ou ter dito apenas
O tudo a ser dito e mais absolutamente nada.
Mas não…
O poeta é maldito
E lavra poesias atrás de outras,
Feito vulcão que não cessa de cuspir fogo pela boca.
É assim o desejo de tão falar,
Que já não diz nada em absoluto
Com a pretendida coerência.
Melhor dizer da essência
E calar tudo o mais.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 13, 2016 em Poesia

 

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Em algum canto de minha alma

 

Gaivotas

Em algum canto de minha alma
Busco silêncio e calma e não controvérsias.
Em algum lugar em mim
Há paisagens lindas, só calma.
Todos os dilúvios já passaram
E só restou a mim mesmo.
Contraponto do contraponto
De minhas todas crenças.
Algoz de minhas parcas virtudes,
Ser de uma inconstância de fazer inveja ao céu e suas nuvens.
Caleidoscópio.
Pedras que se movimentam no mistério,
Produzindo sempre outra imagem.
Apenas um jogo de espelhos,
Mas que jogo bem jogado!

O poeta sente,
Porém num jogo sem sentido.
Sente assim intenso e completamente.
Sente o que sente e todo os não sentidos da vida.
Outrora, havia razão… Hoje?
Hoje é apenas o prenúncio do amanhã.
Um tempo que não passa.
E, se passa, passa e se não percebe,
Ou se se percebe muitas vezes não se vive de fato.
Não por completo,
Não com a devida intensidade.
Nada há de razoável agora,
Só imenso delírio.
Completo castigo e prisão temporal.
Não duvido de nada,
Pois tudo é imensamente absurdo.
Como não poderia ouvir o grito de todas as coisas,
Acaso sou surdo?
Contudo, vejo que somente eu ouço,
Como um louco alucinado,
Um fadado a ouvir em mim todas as vozes
E ser intérprete do mundo.

Meu barco nem boa quilha tem,
Mas ainda assim navega.
Vem rompendo as esquinas e becos
Onde meu corpo se arremessa.
Corpo trôpego, movido de essencialidade.
Não seria mais simples ser superficial?
Para quê tanta filosofia e abstração?
Viver é isso?
Não. Talvez não.
Mas é o meu.
Um caminhar por estradas de pedra,
Um rebolar mais que o rebolado das meretrizes,
Um dizer pelo não dizer
E um afirmar contido de toda a incerteza.

Busco a vida,
Mas a morte é o meu fado.
Ao menos do andrajo que carrego,
O corpo que suporta meu espírito.
Tenho buscado pessoas neste mundo
Que sejam tão verdadeiras quanto os cães que vadiam na rua,
Porém não há.
Todos têm algo de oculto, de mistério,
Algo que se vela através de suas desilusões.
O mundo é imensa cortina
Que recobre a insuficiência da reta coragem
De se admitir falível.
Todos somos super-heróis,
Verdadeiros Aquiles frente à Tróia de nossos sonhos.
Puro delírio, somente isso
E mais absolutamente nada.
Nosso travesseiro se mancha com o mofo de nossas lágrimas
E nossos lençóis conhecem nossa insegurança
Mais perfeitamente que o coração de nossas mães.
Quem somos nós senão o produto de nossos delírios?

Agora me aquieto,
Pois meu pensamento é como chuva de verão.
Passou o tormento e chega de me aniquilar.
Basta de tudo. Basta…
A mente já não pensa.
Vem uma canção. Ela me nina.
Assim durmo.
Braços me envolvem,
Não sei se asas de anjos.
Não importa.
Somente quero aconchego.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 8, 2016 em Poesia

 

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A vida me escoa pelas mãos

Retrato de Fred Ross - César Santos

Retrato de Fred Ross – César Santos

A vida me escoa pelas mãos
Como um pensamento que se perde
Ao se acordar de um sonho.
Quisera eu jamais acordar de todos os sonhos,
Quisera viver a completude,
Aquilo que é todo o meu desejo.
Mas, enfim, vivo o que me seja possível
E nem um dedo além,
Nem que isso seja um dedo amputado.
Guardo em mim todos os meus sonhos
E os do mundo inteiro.
Talvez por isso, seja tão perturbada a minha alma.
Talvez…
Ou simplesmente o é por ser minha alma
E nada mais profundo que isso.
Nada tão filosófico e excepcional
Que mereça reverências ou estudos.
Apenas minha alma…

Tenho desistido da vida
Mais fácil do que quem abandona uma mulher leviana.
Talvez quem o faça possa ter perdido alguma recompensa,
Porém minha vida tem por tesouro a desilusão.
Não passa de uma caixa de Pandora.
Mais próximo a um gesto obsceno
Do que propriamente algo de mínimo valor.

Outro dia, despretensioso, caminhava pela calçada,
Quando um brilho, junto ao meio-fio, me chamou a atenção.
Era um pequeno crucifixo, que, creio, se rompera de um colar.
Nele a fatídica imagem de um Jesus torturado.
— Por que adoram tais coisas?
Já não nos bastam todos os males deste mundo?
Não sei por que replicam indefinidamente
Tal gesto de tamanha crueldade e gozam com isso.
Na cruz não há deuses,
Apenas homens vilmente torturados —.
Continuei meu caminho após tomar a cruz na mão.
Não cabia em meus ombros,
Nem sobre a que já carregava.
Não haveria a ela de acrescentar ainda mais peso
Por tão banal filosofia.
Apenas segui e não pensei mais nisso.

Não há mais nada que deveria sentir,
Pois tenho acumulado sentimentos
Como um guri que junta figurinhas
Numa coleção que jamais se completa.
E quanto mais eu o faço
Mais tudo transborda de mim,
Feito inundação que devasta a terra
De todos os meus desejos e sonhos.
E quando tudo se acalma,
Olho ansioso pelo postigo
Da porta de minhas esperanças
E só consigo ver devastação.

Não é minha intenção declarar somente tristezas
E parecer que somente declamo dor e desgraça,
Que minha vida seja assim tão malfadada.
Para quem se arrasta travestido
Dos andrajos das sensações e emoções,
Que tolda a visão além da janela de seus limites
Com os andrajos das cortinas de suas impotências,
Que se alimenta de tamanhas vicissitudes,
Não sou feliz, mas não de todo desgraçado.
Tenho a poesia — ou ela me possui por completo,
Acho isso mais sensato.
Uso dos versos para dialogar comigo
E o universo inteiro e todos os seres.

Vem o vazio,
A embriaguez dos versos passa.
Durmo a hora, dispo a farsa.
Volto ao nada de mim.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 4, 2016 em Poesia

 

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Eu não deixo retratos

 

Albrecht Dürer - Autorretrato

Albrecht Dürer – Autorretrato

Eu não deixo retratos
De minha perdida vida em três por quatro…
Eu escancaro na mais alta resolução
O incompreensível de todas as minhas incertezas.
Não ando em sombras que possam velar
O sinal inexorável de minha pequenez.
Ao contrário, se chagas eu tenho,
Se maculado ou o que eu tenha,
Grito ao mundo toda a minha controvérsia.
Alguém me creu são?
Ah, me perdoem os dissimulados!
Onde haveria sanidade em quem a poesia possuiu?
Sanidade é para gente reta,
Não para quem, poeta,
Faça tal coisa: poesia.

Tem-se do poeta uma imagem muito lírica.
Vive ele alçado ao Olimpo,
Convivendo entre deuses.
Mal se sabe a sua sorte
E o fardo que carrega.
— Vês ali? É um poeta…
— Oh! Tanta beleza…

Não digo que belezas e sentimentos sublimes não há.
Não haveria de ser de outra forma,
Pois poeta é assim:
Cata migalhas de algum bom sentimento do mundo
E chafurda em sua excrecência.

Ah, como são doces e perfumosas as flores,
Quão belo o dia que nasce iluminado,
O hálito da terra quando cai a chuva…
Quanta beleza, quanta imensa beleza.

O mundo se colore de cores.
Cada um e ser tem sua sensibilidade.
Uns percebem, outros limitados, não.
Será somente o mundo o que se percebe?
Não haverá uma alternativa aos sentidos?

A noite caiu…
Agora as estrelas riem do meu fado.
Grandes prostitutas! Levianas!
Digo-lhes: as estrelas não passam disso.
Foram existidas (perdão, mas sigo)
Para durarem imensamente.
Porém, têm uma vida monótona.
Iluminam, alimentam umas bolinhas
Parasitadas por umas criaturas ínfimas,
Essas que dão o nome de vida.

Talvez eu esteja certo em muitas coisas
E em outras não.
Mas o certo pelo certo e o errado por outro,
Resolve-se na constatação da imprecisão
Do que são todas as certezas,
Sejam elas religiões, filosofias, ciências,
E acima de tudo o que penso.
Nada disso vale tostão furado,
Pois tudo se transforma e a mente se alarga
E o que era hoje…
Certamente amanhã não será.
Ou será?

Quem se dá o trabalho de ler os meus garranchos
Deve muito em fazer o sinal da cruz.
Chega de martírio:
Regurgitar o próprio vômito de suas memórias
Já é um enorme padecer.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 4, 2016 em Poesia

 

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