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Arquivo mensal: abril 2016

Meu lugar é lá fora

 

Nebulosa no Órion (Hubble).

Nebulosa no Órion (Hubble).

 

Meu lugar é lá fora,
Não aqui dentro de mim,
Sob a proteção das camisas de força
Que se costuram de minhas certezas absolutas.
É bem lá fora…
Arremessado ao imponderável
E sujeito a toda descoberta.
Meu lugar é a imprecisão da estrada,
É o escarnar meus pés na virtude de seguir
E ser expectador da vida tão somente.
É concluir que nada jamais finda,
Que cada átomo que compõe meu corpo
Há de triunfar um dia
Na explosão de uma estrela
E que meu espírito
Prosseguirá em uma dimensão outra,
Em outra ilusão cheia de absolutas certezas.
Quanto mais sábio tenho me tornado,
Mais me desconheço
E mais me aprendo aparte de mim
E uno com tudo.
Já não sou sol que brilha solitário,
Mas galáxias e vazios,
Inundados de realidades possíveis.
Sou a mais franca loucura,
A perversão de tudo o que não seja contumaz.
Sou o completo tarô
E o arremesso da sorte.
O brilho e a escuridão,
As estrelas todas
E o nada.
Eu sou.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 26, 2016 em Poesia

 

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Espere…

Arte: Alexander Voronkov

Arte: Alexander Voronkov

Espere…
Que em mim outros versos,
Vem assim, tão tolamente morrendo,
Nesses que escrevo.
São a renúncia à Eternidade,
O calabouço de tudo o que tenho criado,
A morte à mingua de um instante único
Que só pertencia ao seu tempo,
Aquele lá do qual foi furtado.
Agora, mofa nas páginas obscuras
De uma revelação descabida,
Um jorro de símbolos,
De grafismos em que não se enleia
O menor traço de sentimento,
Mas apenas um discorrer de palavras
Que se sabe lá!
Alguém há de entender.
Perdeu-se de seu rumo,
De seu porto de partida essencial
E está à mercê de um mar de infinitas interpretações.
Não quisera que houvesse sentido em tudo isso,
Nem que em versos se transformasse.
Que não houvesse forma,
Porém o mais puro e único sentimento.
Um sentir assim por completo,
Onde se calassem todas as palavras
E não houvesse sequer balbucio.
Não era para ser poesia.
De fato não,
Mas transbordou.
Talvez, para se lançar desse mundo plano,
No fim de todos oceanos
E morrer na infinitude
Das estrelas além.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 25, 2016 em Poesia

 

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Uma das maiores conquistas humanas é a razão

Fernão Capelo Gaivota

Fernão Capelo Gaivota

 

Uma das maiores conquistas humanas é a razão e essa parece perdida, ufanada pelo interesse e opinião pessoal sem o menor embasamento de causa. Se mergulha em crítica contrária, ou em apoio leviano, simplesmente por fé, ou ideologia com base em empatia.
A razão não é concordância com o pensamento próprio, mas tem por base o questionamento das motivações e fatos. É busca e não, aceitação consumada de opinião alienígena a sua especulação pessoal.
Há imensa diferença entre concordância e conivência. A concordância se baseia na similitude de conclusão e a conivência na exceção movida por interesse próprio ou em comum.
Via de regra, o comodismo nos imbeciliza. Somos genéricos manipulados pela opinião comum.
Que saudade de “Fernão Capelo Gaivota”!
S. Quimas

 
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Publicado por em abril 15, 2016 em Poesia

 

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Eu não penso

Mendigo, sem-teto.

Eu não penso,
Mas logo visto.
Visto em mim as vestes do contrassenso da humanidade,
Despido de certezas e das verdades,
Essas tão caras a todos
Que amam o absoluto de sua hipocrisia.
Não sou poeta?
Se o fosse poesia faria.
Faço a exaltação em palavras
Do arremedo de meus sonhos
E escarno em versos as minhas imensas feridas.
Perdoem-me aqueles que esperavam de mim
Algo que não a pequenez de tudo isto.
Não sou profeta, não sou Deus,
Nem sequer religioso sou,
Quanto mais divino.
Sou quimera, caixa de Pandora,
Vim destruir a comodidade,
Não por ser absolutamente a Verdade,
Essa falácia conceitual.

Gritam-me que sou niilista,
Não sou.
Niilista é quem se condena a seus conceitos pétreos
E não é capaz de arquivá-los nas nuvens
De sua transformação.
Quem não percebe o momento
E o caleidoscópio que é a vida.
Sou contemporâneo de minhas paixões
E ancião de meus desejos.
Tudo se esvai como tudo se esvai,
Assim como a água que se escoa em um rio.
Haverá o rio de abraçar o mar?
Quem sabe? Muito rio simplesmente seca.

Não há pessimismo em mim.
Não vejo sentido em sê-lo
E nem em ser de todo modo otimista.
Há, sim, uma gravidade em compreender
Que a vida é apenas o que é
E exatamente… Mais nada!
Mesmo que ruminemos sonhos e regurgitemos esperanças,
A vida segue como ela é.
Simplesmente porque é a vida que vivemos,
Seja bela ou uma triste carranca
É a que temos.
Quem poderá sorrir
As lágrimas que jamais sentiu
Escorrerem por sua face?
Não há lembrança e risos
Daquilo que jamais se viveu.

Cheguei à conclusão
Que de certa forma somos insanos
E somos melhores quanto o mais somos.
Gente dita normal
É um engano na criação,
Só perturba o êxtase de quem
Goza em profundidade com as estrelas.

Caminho farto de tudo isso
E o mundo para mim
Não passa de uma coleção absurda de equívocos,
Um triturar de solidões regadas de abraços
Sem a profundidade do desejo e do sentimento.
O mundo é uma coberta esfarrapada,
Um andrajo fedorento de boa estampa,
Que mal cobre e aquece
O mendicante deitado
Na sarjeta de suas crenças.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 12, 2016 em Poesia

 

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A verdadeira cura para os problemas do ser humano

Leão e filhotes

A verdadeira cura para os problemas do ser humano não pode ser dada pela medicina, mas pela extirpação de suas crenças estapafúrdias. Tal coisa não se faz com um bisturi, mas pela educação libertadora e pelo desenvolvimento de consciência de si mesmo e de tudo além. Isso não é resultado de adquirir informação e conhecimento, mas fruto da capacidade de discernir, de pensar com lógica e amar à razão. É ter em contraponto, a capacidade de se emocionar e sentir em profundidade à vida e aquinhoar cada instante e cada vivência como únicos e especiais.
A mais profunda reflexão vem da compreensão de que não estamos aqui para a materialidade, não para servi-la, mas para utilizá-la como instrumento à construção de nós mesmos. Não que sejamos de todo néscios, porém que somos viajantes e, de certa forma, devamos usufruir do caminho, meio desapegados e com o espanto de uma criança frente a uma descoberta.
Perdemo-nos muito em nossa seriedade e limitamos os caminhos da revelação. Somos formais excessivamente em nossos conceitos e bradamos que a vida é séria. A vida não o é. É um jogo curto demais e nos mostra que devemos ser deuses brincalhões.
A dor do mundo em boa parte tem como causa a perdida capacidade de ser infante. Nós nos tornamos absurdamente sérios demais, adultos demais. Não rimos e, muitas vezes de fato, nos incomodamos com a felicidade e risos alheios, como se ser feliz fosse o maior pecado. Imolamo-nos na intransigência de nossas justificativas e “imensas” responsabilidades.
O mundo não se construiu a partir de nossa retidão e não findará devido ao nosso ócio. É o mundo, uma construção abstrata da leviandade de uma raça que sonega a si mesma a possibilidade de felicidade. A vida é dura: mate essa crença, pois ela se replica de modo infindável em tudo o que se vive e em tudo ao redor, tornando à vida uma angústia.
Não há ao que se obedecer, senão à própria consciência, mas à consciência de fato e não ao conjunto de informações e conhecimentos implantados, à lavagem cerebral, às crenças.
O tempo “ruge” e o leão simplesmente se espreguiça na savana e, preguiçoso, continua a dormir, satisfeito com aquilo que lhe coube para que sobrevivesse e viver mais um dia.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 9, 2016 em Poesia

 

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Queria que de mim só transbordasse amor

Anastasia Tillman (Stasi). aos treze anos - Autorretrato.

Anastasia Tillman (Stasi). aos treze anos – Autorretrato.

 

Queria que de mim só transbordasse amor,
Amor por tudo,
Por mim, pela minha amada e tudo o que há,
Mas não é assim.
Nem tudo é como se deseja
E muito pouco será,
Mas também não será
O desejo de quem nos quer matar num Inferno.
O Céu é uma chatice
De infindáveis cantos angelicais.
Tudo certinho demais.
Eu não amo à perfeição,
Amo, sim, tudo o que me é provocação,
Renascer e superar.
Se eu fosse de todo certo,
Não passaria de um chato.
Andaria pela minha rua
E não seria mais famoso
Do que a sombra que um poste projeta.
Contudo, na minha rua,
Sou conhecido pela minha irreverência,
Pois como alguém poderá
Em sua sã consciência
Viver de arte e poesia?
Eu não vivo disso e não sabem.
Vivo do que vivo
E vivo sem razão.
A poesia vem, a música, a arte.
Não tenho o menor domínio sobre isso,
Sou apenas a expressão do imponderável.
Tem dias que o sol me cresta a pele,
Noutros a lua me transfigura
E ainda em outro não há nada,
O mais absoluto nada,
Um vazio por completo,
Repleto de infinito inexistir.
A vida é a droga mais severa que já provei,
Pois desde meu princípio
Escravizo-me a seus ditames
E sei que a libertação
Será minha inexistência.
Não que eu tema a morte.
Ora já a sei desde um tempo
Em que todo o tempo se perdeu
Em tudo o que fui,
Mas que agora já não sou mais eu.
A morte não teria poder
Se todos não lhe rendessem homenagem.
O que há de se parir
Naquilo que se acabou?
Penso que às vezes penso,
Porém muitas vezes duvido
Que tudo o que penso
Pertence ao meu próprio pensamento.
Tenho sido assim uma espécie
De interlocutor do mundo
E minha poesia tem servido
Em muito à sua “Via Crucis”.
De fato, nem sei se poesia faço,
No muito, um despejar de minha imensa imaginação.
Poesia fazem os poetas,
Eu não…
Faço o que faço,
Digo o que digo.
Transborda de mim
A imensidão do meu momento,
Pois ele só a mim pertence.
Cansei de falar de coisas,
Já elas todas não me importam.
Não as ajunto,
Por elas não dou a menor importância.
Podem me acusar extravagante,
De insensível e mesmo de exótico.
Talvez o seja,
Mas não para mim.
Tenho me perdoado em meus limites
Desde que tive consciência de mim mesmo,
Se é que consciência
É saber-se em seus limites
E ainda insistir.
Quem sabe que a menina que sopra,
Ali, bem ali no parque perto de onde moro,
Uma bola de sabão,
Tenha maior revelação
Do que todos os meus versos
E toda minha imensa filosofia?

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 8, 2016 em Poesia

 

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Queria eu matar a inocência

Male_Nude

Queria eu matar a inocência
Que ainda teima em mim,
Só para não sofrer a metade
De tudo o que sou,
Como criança que ainda
Busca o colo de meus desejos,
Balbuciando coisas desconexas
Entre o choro de minhas renúncias.
Queria o desapego dos versos,
Calar-me a um canto
Da escuridão de minha cegueira.
Não ser senão controvérsia silenciosa
De minha luz diáfana,
Borboleta morta
Nas teias de minhas incompreensões.
Queria tudo
Por não desejar senão o nada,
O pão do banquete
De tudo aquilo que jamais viesse a existir,
Da memória de tudo que jamais vivi
E jamais viverei.
Queria apenas descanso
No sepulcro onde enterrei todas
As minhas mais caras ilusões.
Queria a parede cuspida de gestos,
Dos quais minhas mãos
Jamais articularam,
Mas que meus sonhos
Projetaram na imensidão
Da tela de minha total inconsciência.
Queria… Como queria tanto.
E a mim, basta-me
A grandeza do nada.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 7, 2016 em Poesia

 

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