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Arquivo mensal: maio 2016

Passeio em minhas lembranças

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Passeio em minhas lembranças,
Estrada longa e intrincada
Como a teia de uma aranha.
Caminho leve e precavido
Para não me tornar prisioneiro.
Sou astronauta
De mundos há muito vividos,
Mas que não são solo firme.
Muitas vezes a realidade
Confunde-se com todos os sonhos
E os todos os meus desejos,
Daquilo que fora minha ânsia.
Quando folheio o livro de minha vida
As palavras todas se movimentam,
Feito o mar que jamais se acalma
E se faz maré a ir e vir
E roubar o sossego da areia.
Olho lá bem longe o horizonte
E vejo que já tive o desejo de cruzá-lo.
Enfrentaria o mar, todas as incertezas,
Apenas para saber o que há além.
Que fosse nada,
Que fosse tudo,
Que apenas coubesse em meus sonhos.
Eu era menino
E a grandeza da minha vida
Era ouvir todo o mar numa concha.
Quão era belo
E maior que tudo que tive depois.
Tenho deixado uma obra imensa e incessante,
Uma verborragia
Que atinge o limite da loucura.
Mas o mundo
Não deseja os loucos,
Se os quer,
Querem-nos trancafiados,
Mudos, ignorados.
O mundo é uma carga ao meu sonhar,
Torna-me lúcido,
Enquanto o que mais desejo é o delírio.
Sonhar em versos,
Florescer belezas,
Pintar de cores outras
Tudo o que já se pintou.
Tingir o céu de preto
Só para admirar estrelas.

S. Quimas

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Publicado por em maio 26, 2016 em Poesia

 

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Quero que a maior virtude dos homens

Menino Pensando - Autor desconhecido

Menino Pensando – Autor desconhecido

Quero que a maior virtude dos homens
Seja a imensa compaixão por si mesmos
E da mesma forma pelos demais.
E que, conscientes de suas limitações,
Perdoem-se mutuamente
Na mais absoluta sinceridade
E ajam na mais completa boa vontade.
Quero que se alienem da ganância,
Do egoísmo e de toda ostentação.
Quero a simplicidade,
Quero que toda a angústia passe,
Como se transforma o céu desfazendo nuvens.
Quero que todos os olhos se arregalem
E contemplem profundamente
A grandeza da vida.
Quero e assim desejo, de modo tão profundo,
Como o é todo o abismo celeste,
Que todos sejam capazes de estenderem as mãos
E promover o sonho da paz
E universalizem o amor irrestrito
E cooperar nas mínimas coisas.
Quero muito, talvez demais.
Dizem uns: utopia…
Pois quero exatamente tudo isso,
Por mais insano que seja,
Por mais sonho que tenha imaginado.
Eu sei que é possível,
Pois hoje eu vi uma flor
Nascer em meio ao calçamento.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 25, 2016 em Poesia

 

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A névoa vem

S. Quimas - Renascer: Amanhecer no Pinheiral.

S. Quimas – Renascer: Amanhecer no Pinheiral.

A névoa vem
E mansa trespassa
A copa das imensas árvores
E mergulha serena na floresta.
Meus olhos se perdem
E minha alma deles não pede resgate.
Eu devaneio
E meu espírito embevecido
Deixa-se levar.
Vivo mil abraços,
O toque de miríades de folhas,
Esvoaçando por entre os galhos.
Já não é a névoa,
Sou eu quem se esguia
Vaporosamente pela mata,
É todo o meu ser em sonho,
A por completo percorrer
As entranhas da vegetação.
Aspiro perfumes:
O odor da terra húmida,
O cítrico cheiro dos pinhais.
Tudo é eternidade
E nada mais pode me assombrar.
Permaneço em silêncio
E em minha mente uma só voz fala,
Aquela que me enleia,
A da poesia que cantam
Todas as fadas
De todo o meu mais completo delírio.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 24, 2016 em Poesia

 

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Tenho me cansado de todas as canções

Gustave Doré - Don Quixote e Sancho.

Gustave Doré – Don Quixote e Sancho.

Tenho me cansado de todas as canções,
De todos os repetidos versos.
Tenho, mesmo, me cansado das estrelas,
De todo o céu e suas vãs promessas.
Estou cansado,
Mas nisto não há tristeza,
Somente a languidez e a letargia.
É como o torpor do ópio,
Apenas um deixar levar-se.
O que tudo tem me levado a ser,
Senão a própria renúncia de mim mesmo?
Viver é como um profundo esgotamento.
Um dizer sem fala,
Completamente a mudez de meu espírito.
Ser a vela na imensidão escura dos hábitos,
Caminhar se arrastando sem pernas
Pelas estradas tortuosas da inexatidão.
Dormir nos travesseiros toscos
De todas as minhas imensas culpas
E sonhar os delírios de meus todos desejos.
Quem sabe lá, bem longe,
Possa tudo ser diferente?
Quem sabe lá,
Onde jamais existi.
Onde eu possa morrer
A cada ínfimo instante
E em absoluto renascer.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 24, 2016 em Poesia

 

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Gosto das pessoas que escrevem marcando fundo o papel da vida

Velho Mendigo - Vasily Tropinin - 1823

Velho Mendigo – Vasily Tropinin – 1823

Gosto das pessoas que escrevem
Marcando fundo o papel da vida,
Daquelas que não têm temor
Pela irreverência e se expor por completo,
Das que sacodem a poeira e seguem,
Sem se reter se o cão lhes morde o traseiro.
Tenho me fascinado mais pelos loucos,
Por aqueles desacreditados
Pelas certezas e absolutos da sociedade.
Possa ser que ruminem o próprio vômito,
Mas jamais se banqueteiam
Nas fezes do clichê da conformação.
Não me interesso pelos pudicos,
Pelos estereotipados,
Por aqueles que perderam a capacidade de surpreender,
De renovar-se e transformar tudo à volta.
Não acredito naqueles que se consideram pobres,
Pois a maior de todas as riquezas é a vida
E toda imensa e tamanha história que se possa viver.
Não há romance maior do que tudo que se viva
E se possa escrever pela própria pena.
Gosto das pessoas límpidas, cristalinas,
Ainda que vivam a sombra e dias turvos,
Mas nem por isso deixam de seguir o rio
De sua existência, ainda que serpenteando
Pelas terras de suas dores e desilusões sem fim.
Gosto de pessoas que se alegram
Ou choram como crianças,
Que se dão por completo ao sentimento,
A emoção própria de cada momento,
Que sejam capazes de resguardar
Ainda dentro de si alguma inocência.
Gosto de pessoas
Que ainda possam ser
Humanas.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 23, 2016 em Poesia

 

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Divagação

NGC 602

Pomos traços entre as estrelas
E chamamos a isso constelação.
Pomos o mesmo
Entre nossos momentos
E a isso chamamos recordação.
Temos essa tendência de aprisionar,
De compartimentar,
De nos apegarmos assim
À imensa ilusão de que se desse modo fizermos
Tudo será estável,
Nada nos escapará
E a vida não escoará como água por entre nossos dedos.
Eu tenho vivido tempo bastante
Para saber da inutilidade de todas as coisas
E que tudo isso que semeamos
Não passa de apenas de um brinquedo,
Um mero passatempo,
Um jogo de palavras-cruzadas.
Tanta responsabilidade e seriedade,
Tanta sisudez…
Para quê?
Tudo se esvai num suspiro.
Melhor viver embriagado de todo o agora,
Do que lúcido de memórias.
O que tenhamos vivido é somente contemplativo,
O que nós é vida de fato
É a imponderabilidade e o incerto instante
Do que de fato vivemos. Agora.
Eu sempre fui vizinho da morte,
Mas no leito de minhas paixões
Sempre coabitei com a vida.
Parecia-me mais razoável que fosse,
Apesar de que a morte também me seduzisse.
Porém, a vida tinha lá uma coisa
Que sei lá! Era a vida…
Tenho me cansado de todo o fado,
Pois a vida me tem sido amante exigente
E me esgota o entendimento e o corpo,
Furta-me a mim mesmo
E me soma mais dores
Do que orgasmos.
Já precinto que é amante leviana
E que me há de abandonar repentinamente,
Não deixará sequer bilhete,
Irá assim me abandonar pura e simplesmente,
Certa de que fez,
Como qualquer prostituta,
O melhor serviço.
O preço que eu paguei?
Não foi barato.
De fato,
Tudo:
Ter existido.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 6, 2016 em Poesia

 

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Sofro nos meus versos

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Sofro nos meus versos
Como um cão imundo jogado à sarjeta.
Quem saberá de mim
Senão eu mesmo?
Eu que já não me sei
E por completamente me abandono.
Já cansei de minha poesia.
Ela assim só diz de mim
E de minhas totais renúncias.
Queria o veludo das situações
E não a aspereza dos fatos.
Mergulho num horizonte de cegueira
Ao qual nem a mim enxergo.
O que falo é balbucio,
Um esgar de contradições.
Meus céus são nuvens,
Não que nisso não haja beleza,
Mas quero o azul pleno,
O sol rasgado.
Ah, fado que me persegue,
Transtorno que me transtorna,
Morte que me ronda
Com ares de quem consola!
Se eu me liberto e por renúncia a que eu sou
E não pela controvérsias de opiniões.
Já de tudo que se passa
E aquilo que jamais vi ou senti,
Sou assim completo abandono
E minha única virtude é ser poeta
E derramar palavras.
Quisera ser mudo de mente,
Nada pensar e não ter nada a dizer,
Ser uma entropia.
Porém, algo me domina além da força que possuo
E me move a grafar com a pena
Aquilo que não é de mim
E que pertencente ao mundo por completo.
Sou sequaz da abstinência da humanidade
De toda a felicidade,
A encarnação de sua maldita falência.
Abandono-me sem rumo
Ao esmo de minha concupiscência,
Dos lastros de minhas dores,
Do sufocamento de minha total inconsciência.
Já não me atrevo à sorte.
Não a tenho.
Sou o andrajo de uma quimera,
O roto estado de minhas circunstâncias,
Um execrado que só delira.
Transformo em versos
As minhas mais contumazes vicissitudes.
E pergunto: para quê?
Melhor seria me calar.
Mas quem contém
Um vômito?
E eu fico aqui a psicografar
A mensagem tortuosa
De um mundo inteiro
E nada colho do canteiro
Senão a ausência de flores.
Nisto restam rumores,
Mas não a melodia da música.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 4, 2016 em Poesia

 

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