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Arquivo mensal: setembro 2016

Tem crise lá fora

Sri Krishna

Sri Krishna

Tem crise lá fora.
A chuva conspira
No silêncio das nuvens
Que tardam a se formar.
Eu diante do espelho,
Transfiguro-me
Na verdade do que não existo.
Não há em mim,
Senão o arremedo das horas,
Um tempo que não finda,
Pois jamais a ele pertenci.
Pertencem-me as horas todas minhas
— Aquelas que herdei
De todos os lapsos da realidade —
E todo o divagar.
Os sonhos todos e os delírios,
A poesia que me invade
E toda a loucura a que me dou.
Não há como negar
Todas as minhas imensas controvérsias.
São elas cicatrizes que me marcam
E desnudam meu corpo,
E desnudo,
Ímpio, profano,
Rompido de todo o preconceito,
Revelo-me por completo.
Mostro minhas frágeis asas,
Travisto-me de Ícaro
E me mascaro de palhaço,
Faço-me sonhar,
Mas ao mesmo tempo,
Imobilizo-me.
Cruel é a estrada à cegueira,
A tudo que se perde indelével em mim.
Meus momentos todos são cartas,
Todas elas que jamais escrevi,
Pois denunciariam a renúncia
Por tanto viver
E jamais me ter reconhecido,
Por tudo ter completamente vivido
E somente assim o ter.
Não há a menor glória em tudo isso:
O de ter somente caminhado.
Porém, tudo passa
E das memórias levo,
O tudo que jamais recordarei
De todo sonho que vivi,
Mas já ainda prossigo
Em direção ao fosso,
Não do que me torturasse,
Não daquilo que me tenha causado felicidade,
Porém, sigo, enlevado por desmemorias.

S. Quimas

 
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Publicado por em setembro 27, 2016 em Poesia

 

Deixemos que nos roubem nossos mais caros valores

Charlie Chaplin em cena do filme Limelight (Luzes da Ribalta)

Charlie Chaplin em cena do filme Limelight (Luzes da Ribalta).

Deixemos que nos roubem nossos mais caros valores e os substituam por suas ideias alienadas à nossa vivência, que nos roubem o que de mais importante construímos através de tudo o que somos de fato, que nos levem nossa essência e nos “pasteurizem” com seus modelos acabados de vida, por aquilo que seja aceitável e pontualmente mais moderno e na moda.
Que se derrube a ética e se desconstrua toda uma vida, que se desfaçam os sonhos e toda a legítima aspiração, em troca de uma satisfação sensual momentânea.
Que nos abarrotem de tecnologias e que sejam essas a razão de estarmos aqui. Que nelas nos envolvamos, não para ter a real oportunidade de compartilharmo-nos, mas de replicarmos coisas sem o menor sentido em nossas vidas, apenas porque queremos angariar uma quantidade sem fim de “curtidas”.
Deixemos que nos furtem o bem precioso da família, reduzindo a cada dia o tempo em que deveras compartilhamos de algo em comum, natural, “orgânico”, plenamente vivo. Não há grande graça em dizer se o outro viu uma postagem dizendo que lhe ama. Devesse dizê-lo, antes, olhos nos olhos.
Deixemos, pois, todo o tempo se consumir e nos levar para o túmulo.
Nestes tempos tão “importantes”, tudo o que é natural, também o é abjeto e deve ser evitado, pois senão causará estranheza. Contudo, qual a grandeza de se perder a si mesmo e não ser nada mais do que qualquer coisa, senão uma mera réplica de um clichê?

S. Quimas

 
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Publicado por em setembro 22, 2016 em Poesia

 

Não tenho mais tempo a perder

Menino africano

 

Não tenho mais tempo a perder
Com um mundo eivado por todas suas virtudes,
Pois não são elas, senão dissimulações
Dos abismos do simulacro
Do desconhecimento de sua real natureza.
A todo tempo se finge, se contem
E resta de si mesmo,
Um arremedo de contenções
E o que não se é de fato.
Quanta polidez no tiro certo
Do excremento de todas as crenças absolutas,
De todas as ideias que se consomem
Na cristalização e rigidez das posturas,
Que não admitem caminho,
Mas nada nos charcos da estagnação
E do preconceito movido por todo estereótipo.
Nada há de se lamentar jamais
Por passos jamais dados,
Pois mortos não caminham,
Regozijam-se na vitória de sua inércia
E de suas imutáveis crenças.
Consumam-se na ineficácia de sua não reação.
Não há que se gritar em mundo de surdos,
A voz não é sua linguagem,
A sua é outra, menos perturbadora,
Menos grave e acutilante.
Não há como descrever a cegos,
O quê, infelizmente,
Só a visão plena alcança.
Toda a imagem “traduzida” é fútil:
Jamais terá a amplitude da visão
Do sorriso sincero de uma criança.
O mundo se apega a miragens,
Dissolve-se em ódio a tudo estranho a si mesmo
E contempla a derrota da possibilidade,
Quando fechou as portas de seu túmulo
E lacrou suas paredes
A possibilidade de janelas:
Reinventar-se.

S. Quimas

 
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Publicado por em setembro 20, 2016 em Poesia

 

Assim me despeço

Nobuyuki Shimamura

Nobuyuki Shimamura

Assim me despeço
De toda a humanidade,
Através de versos,
Os maiores
E, entre todos,
Os mais singelos que eu fiz.
São os mais verdadeiros,
Os que mais de mim disseram
E para a eternidade
Serão como marcas,
Que jamais se apagarão.
Neles todos os meus sonhos
E cada uma minha frustração.
Têm eles a cor do limbo,
Que foi a vida que levei,
Têm a minha profunda sabedoria
E transbordam a ignorância
De tudo aquilo que imensamente
Não sei.
São versos simples,
Quase um desabafo.
Falam do fado
E de toda a sorte que jamais tive,
Mas declaram as flores
Dos muitos caminhos que percorri.
Dizem de tudo
Aquilo que foi por mim sentido,
Daquilo que me embriagou em vida.
Fui silêncio e placidez,
Porém o grito incontido clamou de mim.
Agora, o que sou?
Não as pegadas que deixei,
Nada que vivi.
Eu não sei.
Só sei que escrevo
Para deixar o testemunho de minha imensa inconsciência.
Há quem veja nisso arte.
Vejo nisso o brilho fosco
De toda minha enorme cegueira.
Meus olhos nem pranto têm,
Pois virei deserto
E tudo se consumiu em estéril areia.
Essa mesma que se esvai
Na ampulheta de um tempo
Que jamais me pertenceu.
Em mim não há mágoas,
Pois todas elas já cicatrizaram.
O que mancha por completo meu corpo
É a vilania da vida que prossegue,
Essa que me tortura,
Que me corrompe em crenças
Daquilo que jamais acreditei.
Não porque fui distante de toda a fé,
Mas porque meus passos
Foram incertos e todo o meu pé
Apenas caminhou para abismos.
Não sei se sou inteligível,
Se tudo o que digo demonstra
O que está em mim
E o que sou.
A vida me roubou a vida.
E agora?
Sigo a hora,
Os ponteiros de um relógio invisível,
A curva de um pêndulo
Que me é guilhotina a ameaçar o pescoço.
Sigo… Não sei.
Mas não caminho.
O céu é ainda o céu,
Lá todas as estrelas
Que eu sempre vi.
Em mim a escuridão,
A profunda lembrança
De todos os meus desejos,
As cicatrizes do que não vivi.

S. Quimas

 
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Publicado por em setembro 9, 2016 em Poesia

 

Ainda não vi nesse mundo o que me console

Grigory Karpovich Mikhailov - Prometeu

Grigory Karpovich Mikhailov – Prometeu

Ainda não vi nesse mundo o que me console.
Todos tão retos e ilibados
Só me acusam de meus defeitos e injúrias.
Nem minha própria mãe
Deu-me carinho e aconchego.
Dava-me coisas.
Dava-me alimento, presentes,
Mas coisas.
E mais nada do que meramente coisas.
Não sentava comigo e filosofava.
Não que fosse incapacitada intelectualmente,
Não que lhe faltassem virtudes,
Não que não houvesse nela
Um único vago de incompreensão.
Faltava-lhe, talvez… Coragem.
Coragem para dizer o que pensava deveras,
Para ouvir o que fosse a minha verdade.
Não a minha mais absoluta,
Mas a que em mim estava presente
No momento do diálogo.
A impressão que levo desse mundo
É que deva ser eu um rato,
Ou um obscuro inseto,
Que rasteja pelos cantos escuros
Das paredes engorduradas das cozinhas.
Não existem em mim carências.
O que há em mim é a dor
De toda a constatação.
Talvez. Talvez deveras devesse abandonar
Qualquer menor desejo
De reconciliação com a vida.
Contudo em mim a vida grita
E transborda em verso,
Que nem eu sei porque existem,
Se são alucinações,
Delírios dos andrajos de que minha alma se veste,
Se são expressão de minha insânia e angústia,
Se enfim,
Não são absolutamente nada
E apenas versos.
Tudo em mim se faz presença,
Tudo em mim é ferro em brasa
E deixa imensas marcas em minha memória,
Tudo em mim tortura e é glória:
Um sem limite de sensações
E infinitos sentimentos.
Tudo em mim ataca e me consome.
Tudo em mim.
Tudo em mim me alimenta
E me causa imensa fome.
Tudo em mim é poesia.
O tudo e o nada.
O universo e a inexistência.
Tudo em mim sou eu
E tudo mais.
Tudo em mim segue
E tudo passa.

S. Quimas

 
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Publicado por em setembro 8, 2016 em Poesia

 
 
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