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Arquivo mensal: julho 2017

A dor em mim é tão completa

Prometeu

Prometeu

 

A dor em mim é tão completa
E dela minha alma
Assim tão repleta,
Que a ela, por companheira,
De todo se afeiçoou.
Melhor senti-la,
Do que o vazio do nada.
Melhor perder-se num sem sentido,
Por mais atroz que o seja,
Do que a crença vazia
Numa prece jamais atendida.
Melhor a ferida
Que de todo acutila,
Pois real,
Do que a malfadada esperança
Que jamais se consuma.

Meu corpo se verga
Diante do dilema de permanecer
Aprisionando minha alma.
O cativeiro se esvai
E o laço se enfraquece,
Tudo vai se diluindo,
Feito a névoa
Consumida pelo sol que teima
A renascer a cada dia.
Já não há luz
Em meu espírito aturdido,
Somente visões de quimeras.
Perco-me nos abismos dos desencontros,
Na tortura que me consome viver
Sem ter de fato existido-me.
Tudo é vão e soa oco.
Arremessado na montanha
Sou Prometeu torturado,
Um degradado do Olimpo,
Um deus sem preces
E destituído de todo o culto.
Algo em mim canta, é música,
Mas meus ouvidos estão surdos,
Morreram para toda a clareza.
Navego sem bússola,
Sem destino.
Sequer sei se para o abismo,
Ou para o Paraíso.
Tudo é tão diáfano,
Tão vilmente impreciso.

Como alguém há de suportar tanta dor?
Como há?

S. Quimas
28.VII.2017

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Publicado por em julho 29, 2017 em Poesia

 

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Sou uma lástima

Ícaro

Ícaro

Sou uma lástima.
Não, não lamentem o que sou.
Sou exatamente
Esse algo indigno de piedade
E de todas piegas lamentações.
Sou a diáspora,
A ruptura de todo o senso,
A irracionalidade.
Alguém me perguntou
O porquê de eu viver o que eu vivo.
Respondi: vivo a minha tremenda
E insuperável idiossincrasia.
Sou isso que sou.
Seja torpe, leviano,
Doidivanas, irrequieto,
Feto abortado de consciência.
Hoje caminhei no mundo
E vi no cinza dos paralelepípedos
A minha alma tragada de desesperanças.
Não porque não tenha alegrias,
Mas as que tenho são uma infinidade
De coisas não construídas, ideais.
Castelos em nuvens diáfanas,
De possibilidades lúdicas,
Que divertem o Inferno de minha alma.
Já não tenho mais lucidez,
Basta-me a utopia
E a toda ruptura com a sanidade.
Aquieto-me a um canto,
Pois no silêncio me encontro.
Quanto grito de mim veio,
O rebater de minha alma atribulada.
Vou assim caminhando,
Não tenho mais asas
E se as tivesse,
Estariam como as de Ícaro.
Não há abismo em mim,
Há algo mais profundo,
Algo que nasceu antes de mim.
Não foram esses passos que dei,
Não esses pés,
Sequer meus gestos.
A dor que trago
Não pertence à Luz.

S. Quimas

 
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Publicado por em julho 24, 2017 em Poesia

 

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