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Arquivo do autor:S. Quimas

Sobre S. Quimas

Artista plástico, designer e escritor, nascido em 31 de março de 1961, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, Brasil.

Sou uma lástima

Ícaro

Ícaro

Sou uma lástima.
Não, não lamentem o que sou.
Sou exatamente
Esse algo indigno de piedade
E de todas piegas lamentações.
Sou a diáspora,
A ruptura de todo o senso,
A irracionalidade.
Alguém me perguntou
O porquê de eu viver o que eu vivo.
Respondi: vivo a minha tremenda
E insuperável idiossincrasia.
Sou isso que sou.
Seja torpe, leviano,
Doidivanas, irrequieto,
Feto abortado de consciência.
Hoje caminhei no mundo
E vi no cinza dos paralelepípedos
A minha alma tragada de desesperanças.
Não porque não tenha alegrias,
Mas as que tenho são uma infinidade
De coisas não construídas, ideais.
Castelos em nuvens diáfanas,
De possibilidades lúdicas,
Que divertem o Inferno de minha alma.
Já não tenho mais lucidez,
Basta-me a utopia
E a toda ruptura com a sanidade.
Aquieto-me a um canto,
Pois no silêncio me encontro.
Quanto grito de mim veio,
O rebater de minha alma atribulada.
Vou assim caminhando,
Não tenho mais asas
E se as tivesse,
Estariam como as de Ícaro.
Não há abismo em mim,
Há algo mais profundo,
Algo que nasceu antes de mim.
Não foram esses passos que dei,
Não esses pés,
Sequer meus gestos.
A dor que trago
Não pertence à Luz.

S. Quimas

 
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Publicado por em julho 24, 2017 em Poesia

 

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Tenho sido outro

Rio

Tenho sido outro
Por toda a minha vida.
Outro que caminha nas ruas,
Um outro qualquer.
Tenho sido mais um outro,
Para quaisquer todos os outros,
Que na minha vida insignificante,
Não passam de transeuntes,
Numa estrada sem razão.
(Nenhuma filosofia, doutrina, religião
Há de me confortar
Em minha descabida ausência de mim mesmo).
Nos cumprimentamos e fazemos mesuras.
Gestos banais,
Vazios incomensuráveis,
De não reconhecimento,
Ou de nos reconhecermos assim: outros.

S. Quimas

 
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Publicado por em junho 2, 2017 em Poesia

 

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Aqui deixo

 

Daniel Sprick

Daniel Sprick

Aqui deixo
Minhas todas as memórias.
Não sei se fui torpe,
Sujo de linguajar,
Ou de certa forma contundente.
Talvez, pela dificuldade
De me expressar a contento,
De não ter certas as palavras
— com elas tenho lutado uma vida inteira.
Palavras não ofendem,
Nem são capazes de conquistar,
Mas sentimentos
E, talvez, motivações, sim.
Palavras são como vestes de nossos espíritos.
Dizem soberbamente de tudo
E podem ser apenas falsas
Premissas moldadas
Pelo oculto nosso descontentamento,
Ou fantasias de uma felicidade mascarada.
Há alegria em se viver, gozo.
Contudo, há às vezes dor
E a sensação de absoluto fastio.
A vida segue como um rio
De águas outras a cada instante,
Mas o mesmo rio
E mais absolutamente
Nada.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 30, 2017 em Poesia

 

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Tem hora que eu acordo

Delacroix

Tem hora que eu acordo
E dentro das horas tudo isso se anuncia pesadelo.
Não sei se sonho, ou deveras estou lúcido,
A vida para mim não passa de imprecisão.
Uns me acham isso, outros aquilo,
E eu mesmo jamais me soube.
Não porque não tenha filosofado,
Não porque não tenha pensado,
Não porque tudo.
Só sei que o mundo
É um tão completo absurdo
E minha louca consciência,
Se é que a tenho,
Também assim o é.
Outro dia, não me lembro de muito bem,
Mas não vem ao caso falar disso.
Nem sei porque falei,
Acredito que apenas para prolongar
E em não falar,
Chamar a atenção.
Isso que faço não é poesia,
Às vezes um arremedo e estrofes,
Que são cobertas que cobrem
A mendicância de meus versos.
Sou esse perambulante de mundo e de estrelas.
Um nauseabundo das virtudes declaradas
E um inconteste contraditor
De todas as virtudes declaradas.
Quão pobre tenho sido nas falências de minha ética,
Essa uma peneira rompida,
Vazada de todos os sóis das absolutas verdades.
Carrego asas,
Apenas para sobreviver voos
Nos abismos a que se arremessa
Por completo minha alma.
Quem dirá de mim
Num futuro de inexistência.
Tu?
A cruz que te marcou
Para todo o sempre
Por teres lido
Estes versos.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 30, 2017 em Poesia

 

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A maioria das pessoas

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A maioria das pessoas é gente exatamente como a ti. Tem flatulências, arrota, defeca, urina. Tem fome, sede, coceira. Sente dor, adoece. Também é gente que mascara a vida e comemora, escondendo de si a verdade existencial que a oprime.
A maioria das pessoas segue seus caminhos, ou divaga na imobilidade da inconsciência, da impotência consentida. É como a ti quando foges e dissimulas o teu sofrer. É intensamente humana e farsante, como só o ser humano sabe ser.
A maioria não tem privilégios dos outros todos, se o são por terem privilégios. Disfarça usando em subterfúgio uma máscara de horror e vomita sua tragédia no disfarce de risos às gargalhadas.
A maioria das pessoas é covarde e rendida. Não foi criada e educada para ser leão, mas para ser alimento de uma sociedade minoritária e que a escraviza.
A maioria das pessoas não passa de um fato matemático estatístico na economia do mundo e tudo que não se enquadra como dado positivo deve ser eliminado, pois sobrecarrega, é fardo.
A maioria das pessoas é anônima à nossa existência e só será conhecida de fato, quando entre a maioria das pessoas sinceramente e em profundidade nos apercebermos que também somos.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 12, 2017 em Pensamentos e Reflexões

 

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Quando a minha hora chegar

Máscara mortuária de Ludwig Van Beethoven

Máscara mortuária de Ludwig Van Beethoven

Quando a minha hora chegar,
Serei apenas sombra de uma árvore
Pousada a um canto da estrada.
Nada sei se serviu de aconchego
A quem possa ter servido de refúgio
Ao sol crestante do caminho.
O caminho era meu e meus olhos
Só viram o infinito de meu além.
Quando minha hora chegar,
Não sei se estarei calmo,
Ou se estarei agonizante,
Por inteiro conturbado.
Só sei, que nada agora que eu pense,
Possa ser tudo o mais além.
Pois, cada momento há de se vivê-lo
E não falseá-lo em fantasias.
Há de se sonhar,
Porém em passos dados.
Há que se fingir,
Mas se chorar frente ao espelho
E inda assim sorrir,
Se perdoando sem mágoas.
Bastam as águas
A escorrer pela face,
Arrancada a máscara,
Desfeito o disfarce.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 9, 2017 em Poesia

 

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Ícaro

Ícaro

Ícaro

Até agora,
Meu poema sangra em versos.
O bip das pontuações
Faz-se ser ouvido
Nas enfermarias dos meus devaneios.
São obscuras as horas
Sem certezas imediatas de medicação.
A cura já não me basta.
Aliás, nada me basta.
O abismo só me engole,
As asas de demônio ou anjo
Estão quebradas.
Não há voo.
Só há o arremesso à profundeza
De todas as minhas desilusões.
Minhas esperanças desfalecem
Como as penas de um pássaro abatido.
Trôpego, já me quedo
Enfim em um jazigo.
O túmulo que cavo
Do meu nenhum sentido.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 7, 2017 em Poesia

 

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