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Quando a minha hora chegar

Máscara mortuária de Ludwig Van Beethoven

Máscara mortuária de Ludwig Van Beethoven

Quando a minha hora chegar,
Serei apenas sombra de uma árvore
Pousada a um canto da estrada.
Nada sei se serviu de aconchego
A quem possa ter servido de refúgio
Ao sol crestante do caminho.
O caminho era meu e meus olhos
Só viram o infinito de meu além.
Quando minha hora chegar,
Não sei se estarei calmo,
Ou se estarei agonizante,
Por inteiro conturbado.
Só sei, que nada agora que eu pense,
Possa ser tudo o mais além.
Pois, cada momento há de se vivê-lo
E não falseá-lo em fantasias.
Há de se sonhar,
Porém em passos dados.
Há que se fingir,
Mas se chorar frente ao espelho
E inda assim sorrir,
Se perdoando sem mágoas.
Bastam as águas
A escorrer pela face,
Arrancada a máscara,
Desfeito o disfarce.

S. Quimas

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Publicado por em maio 9, 2017 em Poesia

 

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Menino

Meninos soltando pipa (1941) - Candido Portinari

Meninos soltando pipa (1941) – Candido Portinari

Ali, longe no caminho
De minhas todas e imensas recordações,
Reencontrei com o menino que fui
E ele sorriu para mim,
Com aquele jeito impertinente
De menino matreiro,
Que a tudo conquista
E faz se render até a mais profunda tristeza.
Depois o menino que fui
Deu-me um abraço,
Aquele carregado de sentimento,
Que só a pureza de uma criança sabe dar.
Eu, agachado, tomou a minha face entre as suas mãos
E olhou fundo em meus olhos
E me beijou. E foi-se.
Nada me disse,
Sequer olhou para trás e foi se indo.
E seguiu caminhando pela estrada
Repleta de imensas promessas,
Ladeada por canteiros de belas esperanças.
Caminhava rápido, resoluto,
Fincando o pé em suas certezas
E em todos os seus acalentados desejos.
De súbito, o menino para
E vejo que chora. Não entendi o motivo,
A estrada era linda,
O sol brilhava
E as nuvens no céu
Imitavam os carneirinhos
De sua imensa imaginação.
Por que será o pranto?
Vi, mesmo ao longe,
Um papel qualquer em sua mão,
Não percebi que o recolhera do chão.
De repente, o menino, resoluto,
Esfregou a manga de sua camisa
Contra o rosto e recolheu
Todas as suas lágrimas e partiu
Em passos ainda mais apressados.
De lá longe,
O vento soprou
E com ele carregou o papel,
Atirado ao chão novamente
Pelo menino que fui.
Pousou, assim, lentamente,
Como a paina que se desprega da árvore,
Junto a mim.
Curvei-me e tomei em minhas mãos o dito papel.
Nele escrito em letras pequeninas:
“Menino, sei de tuas andanças e sonhos,
Sei de tuas esperanças, de teus maiores desejos,
Sei da calma da vida e da ilusão do tempo,
Que quando menino parece se alongar.
Sei de muita coisa,
Se é que o que sei valha algo maior
Do que tudo imensamente
Que tu és em sua imensa simplicidade.
Sei de tuas pipas,
Do teu sonho imenso de voar.
Se pudesse dar-te-ia asas.
(Quisera ser Deus
Para fazer-te eternamente anjo).
Sei de muito
E o que sei parece nada
Perto da tua fome de saber.
Não encontrei a resposta
Ao mundo e nem aquela
Que resolva a mim mesmo.
Por isso, recaminho em mim a estrada,
Só para te reencontrar,
Ainda que seja apenas sonho
E de todo imensa imaginação,
Mas queria aquele teu abraço,
Aquele teu beijo,
Queria sentir
Ao menos alguns momentos
A mim mesmo”.
E o menino se foi….

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 4, 2016 em Poesia

 

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Acabou…

Pierre Julien (French, 1731-1804) - Gladiador Morto.

Pierre Julien (French, 1731-1804) – Gladiador Morto.

Acabou…
Acabou o dia,
Apagaram-se as luzes,
Cessaram-se as vozes.
Só permaneceu no mundo
A trágica liturgia do silêncio.
Mas tudo não cessaria?
Não haveria de ter um termo?
Ainda a um naco de instante tudo era perfeito,
Porém desconstruiu-se em um lapso.
A Terra gira e nem uma esfera é,
Apenas um naco desforme,
Uma pedra sem forma agradável
Disfarçada por águas.
Uma imensa mistificação cósmica.
E todo o resto, o que é,
Senão o plágio do que ela suporta?
Não há outra possibilidade senão a quimera,
A farsa doentia de todas as crenças,
De tudo o que nos engana
E nos leva a crer em subterfúgios à razão.
Nossas mais caras crenças
Não resistem à consciência.
Por isso, somos aqueles que fogem,
Os que se iluminam de sombras
E somos apaixonados por tudo que é obscuro,
Sem sentido,
Torpemente velado por uma fé
A que não se interpõe questão,
Dogmas de imprecisão.
Somos esses remendos em andrajos de compreensão,
Agarrados a mistificações.

Acabou…
Nada mais resta,
Senão o dolo, o escárnio pela idolatria,
Pela renúncia descabida de si mesmo.
Pela covardia em lançar-se a esmo
Em não temer reencontrar-se,
Seja lá o que for a ser encontrado.
Pelo temor da novidade,
O mundo se pare na renovação de seus absurdos.
A estética é infame,
Um repetir de constante clausura em sua insensatez.
Nada mais se revela,
Não há luz bastante…
Tudo não passa de vaidade,
Da ridícula presunção de se saber
Aquilo que queimará
Nas páginas de um passado obsoleto.
Hoje se arregala os olhos
A toda imensa grandeza.
Amanhã se lamentará a mediocridade
Desse dia insignificante.
Quem sabe, valha mais o sorriso de uma criança
Do que todo o glamour do mundo?
Quem sabe?
Talvez, a grande sabedoria
Esteja em realmente não se saber,
Mas em se estar aberto a reaprender.
Em caminhar novamente os passos,
Em dar à vida, não caminho,
Porém pernas.

Ando meio cansado,
Meio, não, muito…
Esgotado, pelo bem da verdade.
Minha poesia só é lamento.
Contudo, o que se espera de um velho?
Eu já o era desde que nasci,
Assim, não chorei
No momento de vir ao mundo,
Mas lágrimas não me faltaram
Em meus muitos passos.
Ultimamente, creio,
Que seria melhor recolher-me no sótão
E de nenhuma forma dialogar
Em absoluto com ninguém…
Com nada.
Seja através de versos,
Seja não caminhar pela rua,
Em não dar de mim aparência.
Porém, a poesia me toma
E me seduz pela paga de seu grito.
Não tenho eu sido
Tão desgraçadamente mais isso?
Um grito que encarna muitas vozes,
Completamente possuído pelo mundo?
Algo em mim não me mata
E outro não me traz à vida,
E eu vou vivendo no limbo de mim mesmo,
Numa alternância de desencontros.
Ora mergulho na escuridão de tudo além.
Em outra reluzo em minha completa ausência.

S. Quimas

 
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Publicado por em março 16, 2016 em Poesia

 

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