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Gosto das pessoas que escrevem marcando fundo o papel da vida

Velho Mendigo - Vasily Tropinin - 1823

Velho Mendigo – Vasily Tropinin – 1823

Gosto das pessoas que escrevem
Marcando fundo o papel da vida,
Daquelas que não têm temor
Pela irreverência e se expor por completo,
Das que sacodem a poeira e seguem,
Sem se reter se o cão lhes morde o traseiro.
Tenho me fascinado mais pelos loucos,
Por aqueles desacreditados
Pelas certezas e absolutos da sociedade.
Possa ser que ruminem o próprio vômito,
Mas jamais se banqueteiam
Nas fezes do clichê da conformação.
Não me interesso pelos pudicos,
Pelos estereotipados,
Por aqueles que perderam a capacidade de surpreender,
De renovar-se e transformar tudo à volta.
Não acredito naqueles que se consideram pobres,
Pois a maior de todas as riquezas é a vida
E toda imensa e tamanha história que se possa viver.
Não há romance maior do que tudo que se viva
E se possa escrever pela própria pena.
Gosto das pessoas límpidas, cristalinas,
Ainda que vivam a sombra e dias turvos,
Mas nem por isso deixam de seguir o rio
De sua existência, ainda que serpenteando
Pelas terras de suas dores e desilusões sem fim.
Gosto de pessoas que se alegram
Ou choram como crianças,
Que se dão por completo ao sentimento,
A emoção própria de cada momento,
Que sejam capazes de resguardar
Ainda dentro de si alguma inocência.
Gosto de pessoas
Que ainda possam ser
Humanas.

S. Quimas

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Publicado por em maio 23, 2016 em Poesia

 

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Sofro nos meus versos

1

Sofro nos meus versos
Como um cão imundo jogado à sarjeta.
Quem saberá de mim
Senão eu mesmo?
Eu que já não me sei
E por completamente me abandono.
Já cansei de minha poesia.
Ela assim só diz de mim
E de minhas totais renúncias.
Queria o veludo das situações
E não a aspereza dos fatos.
Mergulho num horizonte de cegueira
Ao qual nem a mim enxergo.
O que falo é balbucio,
Um esgar de contradições.
Meus céus são nuvens,
Não que nisso não haja beleza,
Mas quero o azul pleno,
O sol rasgado.
Ah, fado que me persegue,
Transtorno que me transtorna,
Morte que me ronda
Com ares de quem consola!
Se eu me liberto e por renúncia a que eu sou
E não pela controvérsias de opiniões.
Já de tudo que se passa
E aquilo que jamais vi ou senti,
Sou assim completo abandono
E minha única virtude é ser poeta
E derramar palavras.
Quisera ser mudo de mente,
Nada pensar e não ter nada a dizer,
Ser uma entropia.
Porém, algo me domina além da força que possuo
E me move a grafar com a pena
Aquilo que não é de mim
E que pertencente ao mundo por completo.
Sou sequaz da abstinência da humanidade
De toda a felicidade,
A encarnação de sua maldita falência.
Abandono-me sem rumo
Ao esmo de minha concupiscência,
Dos lastros de minhas dores,
Do sufocamento de minha total inconsciência.
Já não me atrevo à sorte.
Não a tenho.
Sou o andrajo de uma quimera,
O roto estado de minhas circunstâncias,
Um execrado que só delira.
Transformo em versos
As minhas mais contumazes vicissitudes.
E pergunto: para quê?
Melhor seria me calar.
Mas quem contém
Um vômito?
E eu fico aqui a psicografar
A mensagem tortuosa
De um mundo inteiro
E nada colho do canteiro
Senão a ausência de flores.
Nisto restam rumores,
Mas não a melodia da música.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 4, 2016 em Poesia

 

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