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Eu vivo em um buraco escuro

Órion - Nebulosa "Cabeça de Cavalo".

Órion – Nebulosa “Cabeça de Cavalo”.

 

Eu vivo em um buraco escuro
Que se chama minha alma.
Mas minha alma é um céu noturno
Povoado de infinitas estrelas
E de todos os corpos celestes
Que nela possam caber.
Vivo a atemporalidade
De saber-me outro a cada momento,
Um caleidoscópio que gira
As eternas peças de meu destino;
De perder-me em mim mesmo,
Tamanha a infinitude de cada descoberta.
Vivo assim, descabido,
Tremendamente renunciando
A tudo que seja cerca,
Que se faça muro,
Que limite a contemplação de horizontes.
Não sou montanha,
Não tenho grandezas,
Sou de hábitos simples.
Prefiro a serenidade dos regatos
Que alimentam as florestas.
Prefiro o silêncio dos campos
E o marulhar de ondas em praias
Que quase não foram tocadas.
Eu vivo porque vivo
E assim simplesmente.
Sem o garbo de promessas
Que jamais se cumprem,
Sem a leviandade de crenças,
Que só trazem alienação.
Vivo minha inteira, nua,
Chocante realidade,
Minha profunda verdade.
Vivo o que vivo
E aquilo que a vida me dá.
Sou às vezes transgressor,
Confesso.
E se da vida tenho algo
É porque dela tenho furtado
Todos os imensos sonhos
E todas as mais caras fantasias.
Afinal, não sou poeta?
E de tudo o que é sonho
E as mais descabidas fantasias,
Não se repleta o meu ser?
Assim sigo.
E vivendo o viver,
O tempo passa.
Um dia me apago
Em luz de estrela que há de brilhar
No eterno infinito.

S. Quimas

 
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Publicado por em dezembro 30, 2016 em Poesia

 

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Queria que de mim só transbordasse amor

Anastasia Tillman (Stasi). aos treze anos - Autorretrato.

Anastasia Tillman (Stasi). aos treze anos – Autorretrato.

 

Queria que de mim só transbordasse amor,
Amor por tudo,
Por mim, pela minha amada e tudo o que há,
Mas não é assim.
Nem tudo é como se deseja
E muito pouco será,
Mas também não será
O desejo de quem nos quer matar num Inferno.
O Céu é uma chatice
De infindáveis cantos angelicais.
Tudo certinho demais.
Eu não amo à perfeição,
Amo, sim, tudo o que me é provocação,
Renascer e superar.
Se eu fosse de todo certo,
Não passaria de um chato.
Andaria pela minha rua
E não seria mais famoso
Do que a sombra que um poste projeta.
Contudo, na minha rua,
Sou conhecido pela minha irreverência,
Pois como alguém poderá
Em sua sã consciência
Viver de arte e poesia?
Eu não vivo disso e não sabem.
Vivo do que vivo
E vivo sem razão.
A poesia vem, a música, a arte.
Não tenho o menor domínio sobre isso,
Sou apenas a expressão do imponderável.
Tem dias que o sol me cresta a pele,
Noutros a lua me transfigura
E ainda em outro não há nada,
O mais absoluto nada,
Um vazio por completo,
Repleto de infinito inexistir.
A vida é a droga mais severa que já provei,
Pois desde meu princípio
Escravizo-me a seus ditames
E sei que a libertação
Será minha inexistência.
Não que eu tema a morte.
Ora já a sei desde um tempo
Em que todo o tempo se perdeu
Em tudo o que fui,
Mas que agora já não sou mais eu.
A morte não teria poder
Se todos não lhe rendessem homenagem.
O que há de se parir
Naquilo que se acabou?
Penso que às vezes penso,
Porém muitas vezes duvido
Que tudo o que penso
Pertence ao meu próprio pensamento.
Tenho sido assim uma espécie
De interlocutor do mundo
E minha poesia tem servido
Em muito à sua “Via Crucis”.
De fato, nem sei se poesia faço,
No muito, um despejar de minha imensa imaginação.
Poesia fazem os poetas,
Eu não…
Faço o que faço,
Digo o que digo.
Transborda de mim
A imensidão do meu momento,
Pois ele só a mim pertence.
Cansei de falar de coisas,
Já elas todas não me importam.
Não as ajunto,
Por elas não dou a menor importância.
Podem me acusar extravagante,
De insensível e mesmo de exótico.
Talvez o seja,
Mas não para mim.
Tenho me perdoado em meus limites
Desde que tive consciência de mim mesmo,
Se é que consciência
É saber-se em seus limites
E ainda insistir.
Quem sabe que a menina que sopra,
Ali, bem ali no parque perto de onde moro,
Uma bola de sabão,
Tenha maior revelação
Do que todos os meus versos
E toda minha imensa filosofia?

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 8, 2016 em Poesia

 

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