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Arquivo da tag: consciência

Sou uma lástima

Ícaro

Ícaro

Sou uma lástima.
Não, não lamentem o que sou.
Sou exatamente
Esse algo indigno de piedade
E de todas piegas lamentações.
Sou a diáspora,
A ruptura de todo o senso,
A irracionalidade.
Alguém me perguntou
O porquê de eu viver o que eu vivo.
Respondi: vivo a minha tremenda
E insuperável idiossincrasia.
Sou isso que sou.
Seja torpe, leviano,
Doidivanas, irrequieto,
Feto abortado de consciência.
Hoje caminhei no mundo
E vi no cinza dos paralelepípedos
A minha alma tragada de desesperanças.
Não porque não tenha alegrias,
Mas as que tenho são uma infinidade
De coisas não construídas, ideais.
Castelos em nuvens diáfanas,
De possibilidades lúdicas,
Que divertem o Inferno de minha alma.
Já não tenho mais lucidez,
Basta-me a utopia
E a toda ruptura com a sanidade.
Aquieto-me a um canto,
Pois no silêncio me encontro.
Quanto grito de mim veio,
O rebater de minha alma atribulada.
Vou assim caminhando,
Não tenho mais asas
E se as tivesse,
Estariam como as de Ícaro.
Não há abismo em mim,
Há algo mais profundo,
Algo que nasceu antes de mim.
Não foram esses passos que dei,
Não esses pés,
Sequer meus gestos.
A dor que trago
Não pertence à Luz.

S. Quimas

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Publicado por em julho 24, 2017 em Poesia

 

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Tem hora que eu acordo

Delacroix

Tem hora que eu acordo
E dentro das horas tudo isso se anuncia pesadelo.
Não sei se sonho, ou deveras estou lúcido,
A vida para mim não passa de imprecisão.
Uns me acham isso, outros aquilo,
E eu mesmo jamais me soube.
Não porque não tenha filosofado,
Não porque não tenha pensado,
Não porque tudo.
Só sei que o mundo
É um tão completo absurdo
E minha louca consciência,
Se é que a tenho,
Também assim o é.
Outro dia, não me lembro de muito bem,
Mas não vem ao caso falar disso.
Nem sei porque falei,
Acredito que apenas para prolongar
E em não falar,
Chamar a atenção.
Isso que faço não é poesia,
Às vezes um arremedo e estrofes,
Que são cobertas que cobrem
A mendicância de meus versos.
Sou esse perambulante de mundo e de estrelas.
Um nauseabundo das virtudes declaradas
E um inconteste contraditor
De todas as virtudes declaradas.
Quão pobre tenho sido nas falências de minha ética,
Essa uma peneira rompida,
Vazada de todos os sóis das absolutas verdades.
Carrego asas,
Apenas para sobreviver voos
Nos abismos a que se arremessa
Por completo minha alma.
Quem dirá de mim
Num futuro de inexistência.
Tu?
A cruz que te marcou
Para todo o sempre
Por teres lido
Estes versos.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 30, 2017 em Poesia

 

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A verdadeira cura para os problemas do ser humano

Leão e filhotes

A verdadeira cura para os problemas do ser humano não pode ser dada pela medicina, mas pela extirpação de suas crenças estapafúrdias. Tal coisa não se faz com um bisturi, mas pela educação libertadora e pelo desenvolvimento de consciência de si mesmo e de tudo além. Isso não é resultado de adquirir informação e conhecimento, mas fruto da capacidade de discernir, de pensar com lógica e amar à razão. É ter em contraponto, a capacidade de se emocionar e sentir em profundidade à vida e aquinhoar cada instante e cada vivência como únicos e especiais.
A mais profunda reflexão vem da compreensão de que não estamos aqui para a materialidade, não para servi-la, mas para utilizá-la como instrumento à construção de nós mesmos. Não que sejamos de todo néscios, porém que somos viajantes e, de certa forma, devamos usufruir do caminho, meio desapegados e com o espanto de uma criança frente a uma descoberta.
Perdemo-nos muito em nossa seriedade e limitamos os caminhos da revelação. Somos formais excessivamente em nossos conceitos e bradamos que a vida é séria. A vida não o é. É um jogo curto demais e nos mostra que devemos ser deuses brincalhões.
A dor do mundo em boa parte tem como causa a perdida capacidade de ser infante. Nós nos tornamos absurdamente sérios demais, adultos demais. Não rimos e, muitas vezes de fato, nos incomodamos com a felicidade e risos alheios, como se ser feliz fosse o maior pecado. Imolamo-nos na intransigência de nossas justificativas e “imensas” responsabilidades.
O mundo não se construiu a partir de nossa retidão e não findará devido ao nosso ócio. É o mundo, uma construção abstrata da leviandade de uma raça que sonega a si mesma a possibilidade de felicidade. A vida é dura: mate essa crença, pois ela se replica de modo infindável em tudo o que se vive e em tudo ao redor, tornando à vida uma angústia.
Não há ao que se obedecer, senão à própria consciência, mas à consciência de fato e não ao conjunto de informações e conhecimentos implantados, à lavagem cerebral, às crenças.
O tempo “ruge” e o leão simplesmente se espreguiça na savana e, preguiçoso, continua a dormir, satisfeito com aquilo que lhe coube para que sobrevivesse e viver mais um dia.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 9, 2016 em Poesia

 

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A partir de agora declaro, como rei da minha consciência

Vasily Tropinin - Velho Mendigo (1823)

Vasily Tropinin – Velho Mendigo (1823)

A partir de agora declaro, como rei da minha consciência,
Que nunca se condene um beijo na boca de quem se ame.
Nem que toda a podridão do mundo grite e berre avessa,
Nem que falanges que se desacreditam de si mesmas se oponham,
Nem que tudo isso seja apenas o tudo que penso e nada mais.
Não importa, pois assim, em minha insana consciência,
Faço de tudo e de minhas falácias simplesmente assim decreto.
Que o degredo dos sábios seja motivado pelas estultícias dos estúpidos
E jamais pela consentida conivência, pela cumplicidade dos interesses.
Que se acalmem as águas, abaixo e acima dos céus,
Que caiam as máscaras e todos os véus se rompam em definitivo.
Que não haja mais segredos e nem verdades suprimidas,
Mas em que todo mínimo gesto haja simplesmente naturalidade.
Que não sejamos nossas parcas crenças e meras suposições,
Porém nossa mais simples e ínfima constatada verdade:
Apenas nós.
Que rompamos com os dizeres a nós muito ditos,
Que saibamos em nós mesmos os tantos infinitos
Que somos.
Que seja a dúvida a nossa vertical certeza
E somente o que de fato vivemos, a nossa fé.
Assim, simplesmente, o vivermos
E nos apaixonarmos pelo tempo de nossa existência,
De nossa real presença e assim gozarmos de vida.
Admito a ilusão e o devaneio, sou companheiro dos delírios…
Só não admito a morte, enquanto vivo,
De jamais sonhar.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 16, 2016 em Poesia

 

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