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Arquivo da tag: essência

O que é poesia e o que não é?

Caneta-tinteiro e papel com escrita.

O que é poesia
E o que não é?
Tudo é imensamente poesia,
Depende da visão
— de quem a tenha —
E se poesia queira enxergar
Naquilo que se percebe.
Pois é mais fácil a um verdureiro
Enxergá-la no germinar
E em todo o crescer de suas plantas,
Do que alguém comum de nossos dias,
Fazê-lo assim com tamanha naturalidade
E pleno gozo.
O mundo transborda de substitutivos ao prazer real,
Evita a simplicidade como se fosse lepra,
Torna-se distante de sua essência
E sucumbe nas garras da superficialidade.
O mundo é um amante
Que trepa com o lixo
E derrama o chorume
De sua inconsciência e mediocridade.

Queria falar de flores,
Do sol que nasce, ou se põe.
Queria ser agradável
E não o lamuriento que sou,
Mas não dá…
Quanto mais eu vivo,
Mais a morte se escancara para mim.
Não a minha própria, que será factual,
Mas aquela que caminha
Nos corpos dos transeuntes pelo que passo.
Não são corpos de quem de fato tenha vida,
Não passam de poeira
Deformada em aparência humana.

Isso que escrevo não é poesia.
Não tem canto, métrica, rima,
Não é canção…
É como um vomitar,
Um pôr para fora de mim,
Expurgar a dor de existir,
O tormento de sentir
O veneno que inunda o sangue do mundo.
Melhor se me calasse,
Não acrescento nada.
Melhor a mudez
Do que transformar em versos
A escuridão de meus dias.
Se ainda faço
É porque em meio à escuridão
Leio com os meus olhos estrelas.
Ainda que tudo se perca
E não haja outro amanhecer,
Ainda embalo como a um filho
A esperança
De só ter sonhado
E, assim, por completo
Ter vivido.

S. Quimas

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Publicado por em maio 1, 2016 em Poesia

 

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Lua

Lua

Quando suave a sombra da noite
Se desnuda à luz
Da lua que nasce
Lá tão longe,
Coberta por seu manto de infinitas estrelas,
Sinto quão tamanha a grandeza
De toda a existência.
Percebo inteiramente assim,
De viver a sua essência.
E, basta-me somente isto…
Bastam-me os minutos de contemplação.
Não sei da vida outra razão,
Senão embevecer-se e admirar.
Será o homem capaz,
Com toda a sua ciência,
Com a sua toda arte
E a sua grandiosa filosofia,
Recriar apenas o êxtase
De contemplar a lua?
A lua é amante de todos os enamorados
E musa constante de todos os poetas.
Não é apenas um pedaço de rocha
Que gira no infinito,
Mas encarnação de sonhos
E testemunha de muitos amores.
Guia que descortina à noite
Caminhos que as trevas tentam engolir.
Miragem que desfalece
Roçando o azul do dia.
— Lua, se aqui não estivesses,
Jamais aqui eu estaria.

S. Quimas

 
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Publicado por em março 17, 2016 em Poesia

 

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Meus melhores poemas são curtos e grossos

Rembrandt van Rijn - A ressurreição de Jesus

Rembrandt van Rijn – A ressurreição de Jesus

Meus melhores poemas são curtos e grossos.
Quase frases, balbucios…
Muitas síncopes e silêncios,
Palavras que dizem algo indefinível,
Coisas de significado duvidoso,
Absurdos e controvérsias,
Esgares de uma insanidade impublicável.
Mas são poemas.
O fino extrato
Da mais imensa poesia.
O que lhes falta em sílabas, rimas e versos,
Transbordam-lhes em sensibilidade.
Minha mente não é reta,
Deveria ter dito tal
Em confissão a um padre obscuro
Encarcerado em sua gaiola no confessionário,
Ou ter dito apenas
O tudo a ser dito e mais absolutamente nada.
Mas não…
O poeta é maldito
E lavra poesias atrás de outras,
Feito vulcão que não cessa de cuspir fogo pela boca.
É assim o desejo de tão falar,
Que já não diz nada em absoluto
Com a pretendida coerência.
Melhor dizer da essência
E calar tudo o mais.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 13, 2016 em Poesia

 

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