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Eu não queria

Angelus - Jean François Millet

Angelus – Jean François Millet

Eu não queria…
Eu não queria,
Pois por simplesmente não querer.
Não queira ter dado o passo
E jamais ter caminhado em erro.
Não que de fato seja erro
Tudo aquilo que se vive,
Porém não vivo excluído do mundo,
Mas possa ser de mim mesmo.
Eu não queira ter abordado a vida
Estrangulando-a pela garganta.
Talvez, devesse ter sido mais ameno,
Não tempestade, mas sereno que cai
Em uma noite qualquer da existência.
Não queria ter procrastinado
E nem retardado o fim,
Começando tudo e nada ter arrematado.
Sou um colecionador de sonhos,
Um visionário consumido
Pela droga de se iludir.
No campo em que cultivo a vida,
Não há de se andar senão em nuvens.
Magníficas, aliás, só as lastimo
Quando me encobrem as estrelas.
Eu não queria ter tido a afeição
E, assim, derramado sobre mim,
Todo o amor recebido,
Que foi tão vilmente sequestrado,
Não por quem me tenha dedicado,
Porém pela minha inépcia
Em tê-lo alimentado.
Sou péssimo com tudo,
Um inapto, um destruidor da própria felicidade.
Contudo, toda vela é curta
E há de se apagar uma hora.
Minha alma não clama mais
Que de alguma forma não se extinga.
Já fiz o convite à festa.
Nela, na última valsa,
Enlaçarei à Morte.

S. Quimas

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Publicado por em agosto 6, 2017 em Poesia

 

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Encerrei meu tempo

Rembrandt Harmezoon Van Rijn - Um Idoso em Trajes Militares

Rembrandt Harmezoon Van Rijn – Um Idoso em Trajes Militares

Encerrei meu tempo
Nesse jogo impreciso chamado vida.
Já fiz o que podia.
São tantas as feridas!
Minha alma é quase somente chagas.
Na praça, o realejo.
Velho matreiro e seu macaco.
Comprar-lhe-ia um bilhete,
Mas nenhum tostão no bolso,
Tão vazio como minha alma.
Vazio de mim mesmo,
De disputas para ver os versos
De quem os faria mais.
Nasceu ali no canto uma flor,
Mas já a mim não importa.
Notei… A flor.
Mas não importa mais,
Pois nada mais importa,
Pois não renasço mais.
Tudo viceja à minha volta,
Porém dentro de mim tudo sucumbe.
Simplesmente assim, sucumbe.
Minha alma é um deserto
Coalhado das flores de outrora.
Agora, ai agora!
Em outra hora
Eram sorrisos…
Agora, algo tão impreciso,
Que nem eu sei.
Tudo pode e tudo é nada.
Precisamente, pontualmente, nada.
O meu vizinho, imaginário,
Comemora a sua inexistente alegria.
Talvez um sofá novo, sei lá!
Não me importa.
E o que exatamente há de me importar?
Talvez o sonho que tive esta noite
E que já não me lembro?
Não tenho dúvidas,
As certezas de absolutamente nada
Já preenchem a totalidade da minha existência.
Um dia um grande poeta disse…
Nem disso me lembro,
Contudo me restou o sentimento
Daquilo que li.
Era belo, fabuloso,
E quando penso na pequenez
Da minha existência…
Nada sei de mais nada,
Nada sei.
O mundo gira
E eu com ele.
Um absurdo por constatar
Que tudo anda
E eu permaneço
Qual estaca fincada
Em meio ao campo
Sem a menor razão.
Que é ser poeta?
Um vômito de belezas?
Uma sina de revelações?
Dourar o que de pobre há?
Poesia é loucura,
A mais completa de todas as insanidades.
Poesia é revelar verdades,
Que só os sentimentos integralmente percebem.
Não desejei tal sorte,
Preferível talvez a morte.
Quem sendo são gostaria
De levar a carga do mundo?
A dor imensa de todas as almas.
E, pior, a sua.
A poesia clama, verseja, diz…
O que diz?
Meus ouvidos a ouve,
Mas me tortura o que ouço.
Vozes, muitas, me falam.
Estou embriagado de tudo isso.
Não é só a loucura
É a completa razão de sentir,
Assim por completo,
Assim enormemente.
Aqui tudo me devora
E me consome por completo.
Lá fora, umas gotas de chuva.
Amanhã, talvez eu acorde
E tudo será de novo
Possibilidade.

S. Quimas

 
2 Comentários

Publicado por em janeiro 31, 2016 em Poesia

 

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