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Tenho sido outro

Rio

Tenho sido outro
Por toda a minha vida.
Outro que caminha nas ruas,
Um outro qualquer.
Tenho sido mais um outro,
Para quaisquer todos os outros,
Que na minha vida insignificante,
Não passam de transeuntes,
Numa estrada sem razão.
(Nenhuma filosofia, doutrina, religião
Há de me confortar
Em minha descabida ausência de mim mesmo).
Nos cumprimentamos e fazemos mesuras.
Gestos banais,
Vazios incomensuráveis,
De não reconhecimento,
Ou de nos reconhecermos assim: outros.

S. Quimas

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Publicado por em junho 2, 2017 em Poesia

 

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Queria que de mim só transbordasse amor

Anastasia Tillman (Stasi). aos treze anos - Autorretrato.

Anastasia Tillman (Stasi). aos treze anos – Autorretrato.

 

Queria que de mim só transbordasse amor,
Amor por tudo,
Por mim, pela minha amada e tudo o que há,
Mas não é assim.
Nem tudo é como se deseja
E muito pouco será,
Mas também não será
O desejo de quem nos quer matar num Inferno.
O Céu é uma chatice
De infindáveis cantos angelicais.
Tudo certinho demais.
Eu não amo à perfeição,
Amo, sim, tudo o que me é provocação,
Renascer e superar.
Se eu fosse de todo certo,
Não passaria de um chato.
Andaria pela minha rua
E não seria mais famoso
Do que a sombra que um poste projeta.
Contudo, na minha rua,
Sou conhecido pela minha irreverência,
Pois como alguém poderá
Em sua sã consciência
Viver de arte e poesia?
Eu não vivo disso e não sabem.
Vivo do que vivo
E vivo sem razão.
A poesia vem, a música, a arte.
Não tenho o menor domínio sobre isso,
Sou apenas a expressão do imponderável.
Tem dias que o sol me cresta a pele,
Noutros a lua me transfigura
E ainda em outro não há nada,
O mais absoluto nada,
Um vazio por completo,
Repleto de infinito inexistir.
A vida é a droga mais severa que já provei,
Pois desde meu princípio
Escravizo-me a seus ditames
E sei que a libertação
Será minha inexistência.
Não que eu tema a morte.
Ora já a sei desde um tempo
Em que todo o tempo se perdeu
Em tudo o que fui,
Mas que agora já não sou mais eu.
A morte não teria poder
Se todos não lhe rendessem homenagem.
O que há de se parir
Naquilo que se acabou?
Penso que às vezes penso,
Porém muitas vezes duvido
Que tudo o que penso
Pertence ao meu próprio pensamento.
Tenho sido assim uma espécie
De interlocutor do mundo
E minha poesia tem servido
Em muito à sua “Via Crucis”.
De fato, nem sei se poesia faço,
No muito, um despejar de minha imensa imaginação.
Poesia fazem os poetas,
Eu não…
Faço o que faço,
Digo o que digo.
Transborda de mim
A imensidão do meu momento,
Pois ele só a mim pertence.
Cansei de falar de coisas,
Já elas todas não me importam.
Não as ajunto,
Por elas não dou a menor importância.
Podem me acusar extravagante,
De insensível e mesmo de exótico.
Talvez o seja,
Mas não para mim.
Tenho me perdoado em meus limites
Desde que tive consciência de mim mesmo,
Se é que consciência
É saber-se em seus limites
E ainda insistir.
Quem sabe que a menina que sopra,
Ali, bem ali no parque perto de onde moro,
Uma bola de sabão,
Tenha maior revelação
Do que todos os meus versos
E toda minha imensa filosofia?

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 8, 2016 em Poesia

 

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O INFERNO SÃO OS OUTROS – 100 anos do nascimento de Jean-Paul Sartre


Caricatura do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre por S. Quimas

Caricatura do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre por S. Quimas

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”.

Paris do início do século XX, sentado em torno de uma mesa, em um dos muitos cafés no Quatier Latin, você poderia encontrar um grupo agitado e falante de pessoas em acalorada discussão. Entre os membros deste grupo, um destacava-se já de pronto ao espectador, devido à sua cara-de-sapo, com olhos grandes e estrábicos, atrás de óculos grossos montados numa armação preta.

Jamais você adivinharia num primeiro contato, que essa figura esquisita fosse uma das mentes mais brilhantes do século passado.

No ano de 1905, marcado por fatos como a morte de Julio Verne, pai da ficção científica, a guerra entre russos e japoneses, que leva a destruição de toda a armada russa na Batalha Naval de Tshusima, o antológico motim no encouraçado russo Potemkin, em que a tripulação se rebela e fuzila o comandante e vários oficiais, fato que posteriormente leva à condenação dos oitenta marinheiros à morte, as revoltas na Polônia e na Rússia que deixam atrás de si milhares de mortos, a ratificação pelo parlamento francês da lei que separa o Estado da Igreja, a separação entre a Suécia e a Dinamarca através de um plebiscito, a publicação por Albert Einstein da sua Teoria da Relatividade, a rebelião dos soldados da Fortaleza de Santa Cruz, no Rio, contra os maus-tratos, que culminou na morte de um major, um tenente e um sargento, a fundação do Sinn Fein, precursor do IRA (Exército Republicano Irlandês) e por tantos outros fatos, nasce em Paris Jean-Paul Sartre, no dia 21 de junho.

Seu pai, um oficial da marinha, morreu precocemente e aos dois anos de idade, ele e sua mãe, Anne-Marie Schweitzer, foram morar na casa do seu avô materno, Carl Schweitzer, tio do famoso pastor e organista de Bach Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz de 1952.

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Publicado por em julho 6, 2011 em Biografias, Ensaios

 

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