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As sombras das incertezas

Gustavo Courbet - Autorretrato

Gustavo Courbet – Autorretrato

As sombras das incertezas,
O tudo que não se declara,
O vir a ser e o nada.
Tudo vão,
Tudo imensamente nada.
O porquê de tudo,
O porquê de nada.
O simplesmente assim,
Um sem fim.
Gestos e palavras
E razão nenhuma.
Sombras de nós mesmos,
Arremedo de existências.
Dúvida e nada mais.
Por que seguir,
Se os caminhos são pedras
Que nos acutilam?
A poesia flui,
Mas eu estou paralisado.
Quem não está?
Já não ando
E nada em mim se aproveita.
Cego, já não vejo
E toda minha virtude é apenas viver.
Meus olhos se obscurecem,
Pois não veem mais.
A cegueira me domina,
Sou apenas um trôpego.
Mal caminho os horizontes indecifráveis
Da minha destruição.
Possa ser que faça canção,
Mas poesia não mais.
Tudo isso é dor,
A mais lancinante de todas
E sofro de tudo isso.
Sei de mim e nada mais.
Sei o que sofro.
E quem não?
Todos.
A diferença é que faço do sofrimento poesia.
Há quem se emocione,
Há quem objete.
Poesia é letra,
Uma infinitude de palavras
Muitas vezes sem o menor sentido.
Queria eu falar da aurora,
Mas o sol tarda em nascer.
Seria eu mais poeta
Por falar de coisas razoáveis?
Talvez melhor
Por jamais confessá-las…
Minha alma é um mundo inundado de sentimentos,
Algo tão desarrazoado,
Que jamais ciência ou filosofia
Há de resolver,
Quanto mais explorar.
A dúvida chega.
A loucura se espraia.
Serei em algum tempo razão?
Não.
Sou apenas o que sou
E nem um pingo a mais.

S. Quimas

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Publicado por em fevereiro 18, 2016 em Poesia

 

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Eu não deixo retratos

 

Albrecht Dürer - Autorretrato

Albrecht Dürer – Autorretrato

Eu não deixo retratos
De minha perdida vida em três por quatro…
Eu escancaro na mais alta resolução
O incompreensível de todas as minhas incertezas.
Não ando em sombras que possam velar
O sinal inexorável de minha pequenez.
Ao contrário, se chagas eu tenho,
Se maculado ou o que eu tenha,
Grito ao mundo toda a minha controvérsia.
Alguém me creu são?
Ah, me perdoem os dissimulados!
Onde haveria sanidade em quem a poesia possuiu?
Sanidade é para gente reta,
Não para quem, poeta,
Faça tal coisa: poesia.

Tem-se do poeta uma imagem muito lírica.
Vive ele alçado ao Olimpo,
Convivendo entre deuses.
Mal se sabe a sua sorte
E o fardo que carrega.
— Vês ali? É um poeta…
— Oh! Tanta beleza…

Não digo que belezas e sentimentos sublimes não há.
Não haveria de ser de outra forma,
Pois poeta é assim:
Cata migalhas de algum bom sentimento do mundo
E chafurda em sua excrecência.

Ah, como são doces e perfumosas as flores,
Quão belo o dia que nasce iluminado,
O hálito da terra quando cai a chuva…
Quanta beleza, quanta imensa beleza.

O mundo se colore de cores.
Cada um e ser tem sua sensibilidade.
Uns percebem, outros limitados, não.
Será somente o mundo o que se percebe?
Não haverá uma alternativa aos sentidos?

A noite caiu…
Agora as estrelas riem do meu fado.
Grandes prostitutas! Levianas!
Digo-lhes: as estrelas não passam disso.
Foram existidas (perdão, mas sigo)
Para durarem imensamente.
Porém, têm uma vida monótona.
Iluminam, alimentam umas bolinhas
Parasitadas por umas criaturas ínfimas,
Essas que dão o nome de vida.

Talvez eu esteja certo em muitas coisas
E em outras não.
Mas o certo pelo certo e o errado por outro,
Resolve-se na constatação da imprecisão
Do que são todas as certezas,
Sejam elas religiões, filosofias, ciências,
E acima de tudo o que penso.
Nada disso vale tostão furado,
Pois tudo se transforma e a mente se alarga
E o que era hoje…
Certamente amanhã não será.
Ou será?

Quem se dá o trabalho de ler os meus garranchos
Deve muito em fazer o sinal da cruz.
Chega de martírio:
Regurgitar o próprio vômito de suas memórias
Já é um enorme padecer.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 4, 2016 em Poesia

 

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