RSS

Arquivo da tag: luz

A dor em mim é tão completa

Prometeu

Prometeu

 

A dor em mim é tão completa
E dela minha alma
Assim tão repleta,
Que a ela, por companheira,
De todo se afeiçoou.
Melhor senti-la,
Do que o vazio do nada.
Melhor perder-se num sem sentido,
Por mais atroz que o seja,
Do que a crença vazia
Numa prece jamais atendida.
Melhor a ferida
Que de todo acutila,
Pois real,
Do que a malfadada esperança
Que jamais se consuma.

Meu corpo se verga
Diante do dilema de permanecer
Aprisionando minha alma.
O cativeiro se esvai
E o laço se enfraquece,
Tudo vai se diluindo,
Feito a névoa
Consumida pelo sol que teima
A renascer a cada dia.
Já não há luz
Em meu espírito aturdido,
Somente visões de quimeras.
Perco-me nos abismos dos desencontros,
Na tortura que me consome viver
Sem ter de fato existido-me.
Tudo é vão e soa oco.
Arremessado na montanha
Sou Prometeu torturado,
Um degradado do Olimpo,
Um deus sem preces
E destituído de todo o culto.
Algo em mim canta, é música,
Mas meus ouvidos estão surdos,
Morreram para toda a clareza.
Navego sem bússola,
Sem destino.
Sequer sei se para o abismo,
Ou para o Paraíso.
Tudo é tão diáfano,
Tão vilmente impreciso.

Como alguém há de suportar tanta dor?
Como há?

S. Quimas
28.VII.2017

Anúncios
 
Deixe um comentário

Publicado por em julho 29, 2017 em Poesia

 

Tags: , , , , ,

Eu não busco mais nada

 

Constelação do Cisne.

O Cisne

 

Eu não busco mais nada.
Vivo das sombras
De um rascunho jamais publicado,
Pois se o fizesse,
Se assim o trouxesse à luz,
Crucificaria a humanidade inteira
Que ainda grita dentro de mim.
Nada em mim é razoável,
Nada é em mim senão quimera.
Caixa de Pandora:
Abra-se e meu mundo sucumbe.
Sou um derrotado.
Um naufrágio antecipado,
Uma rota ao desgoverno,
Fadada a ser engolida
Pelos monstros de minhas crenças.
Quem sabe meus absolutos
Se convertam em meras crenças
E se diluam em todas
As minhas constantes e imensas
Incertezas?
Quem sabe, sem qualquer alarde,
Eu me reconstrua em escuridão
Salpicada de estrelas
E todo o Universo habite em mim?
Quem sabe o que não sei
E o que haverei de ser se faça?
Quem sabe? Eu não sei.
Trago discursos de imagens,
Poesia fétida,
Respiração frente ao espelho.
Ele se embaça
E minha imagem se perde.
Sou apenas o que sou:
Um que caminha na névoa,
Engolido por todas as certezas
E, por completo,
Sequestrado por suas ilusões.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em maio 6, 2017 em Poesia

 

Tags: , , , , ,

Hoje sou Khali, amanhã Vishnu

Sri Vishnu

Sri Vishnu

Hoje sou Khali,
Amanhã Vishnu.
E crio universos.
Sou a total possibilidade
De me ser assim completamente.
Digo das horas,
Das todas as névoas,
Da turvação
E de iluminados segundos.
Sou eclipse
E sol que abrasa os desertos.
Esferas que semeiam o Universo
E a escuridão que o permeia.
Sou o que sou
E, admitidamente, mais nada.
Quintessência de mim mesmo,
Jogo em minha própria vida.
A fábula e a realidade mais completa,
O vazio, a depressão, a tortura
E integralmente a felicidade.
Sou a mentira, a farsa
E a total verdade.
Sou poeta,
Alma repleta de tudo,
De tantos dizeres,
De tantos seres,
Como infindas são as humanidades.
O demônio que serpenteia
Nos mais obscuros abismos
E o anjo que voeja
Nos céus de infinitos azuis.
Sou luz e trevas…
Sou poeta.
Eu sou verso
E eterna possibilidade.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em dezembro 21, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , ,

Queria eu matar a inocência

Male_Nude

Queria eu matar a inocência
Que ainda teima em mim,
Só para não sofrer a metade
De tudo o que sou,
Como criança que ainda
Busca o colo de meus desejos,
Balbuciando coisas desconexas
Entre o choro de minhas renúncias.
Queria o desapego dos versos,
Calar-me a um canto
Da escuridão de minha cegueira.
Não ser senão controvérsia silenciosa
De minha luz diáfana,
Borboleta morta
Nas teias de minhas incompreensões.
Queria tudo
Por não desejar senão o nada,
O pão do banquete
De tudo aquilo que jamais viesse a existir,
Da memória de tudo que jamais vivi
E jamais viverei.
Queria apenas descanso
No sepulcro onde enterrei todas
As minhas mais caras ilusões.
Queria a parede cuspida de gestos,
Dos quais minhas mãos
Jamais articularam,
Mas que meus sonhos
Projetaram na imensidão
Da tela de minha total inconsciência.
Queria… Como queria tanto.
E a mim, basta-me
A grandeza do nada.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em abril 7, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , , ,

Acabou…

Pierre Julien (French, 1731-1804) - Gladiador Morto.

Pierre Julien (French, 1731-1804) – Gladiador Morto.

Acabou…
Acabou o dia,
Apagaram-se as luzes,
Cessaram-se as vozes.
Só permaneceu no mundo
A trágica liturgia do silêncio.
Mas tudo não cessaria?
Não haveria de ter um termo?
Ainda a um naco de instante tudo era perfeito,
Porém desconstruiu-se em um lapso.
A Terra gira e nem uma esfera é,
Apenas um naco desforme,
Uma pedra sem forma agradável
Disfarçada por águas.
Uma imensa mistificação cósmica.
E todo o resto, o que é,
Senão o plágio do que ela suporta?
Não há outra possibilidade senão a quimera,
A farsa doentia de todas as crenças,
De tudo o que nos engana
E nos leva a crer em subterfúgios à razão.
Nossas mais caras crenças
Não resistem à consciência.
Por isso, somos aqueles que fogem,
Os que se iluminam de sombras
E somos apaixonados por tudo que é obscuro,
Sem sentido,
Torpemente velado por uma fé
A que não se interpõe questão,
Dogmas de imprecisão.
Somos esses remendos em andrajos de compreensão,
Agarrados a mistificações.

Acabou…
Nada mais resta,
Senão o dolo, o escárnio pela idolatria,
Pela renúncia descabida de si mesmo.
Pela covardia em lançar-se a esmo
Em não temer reencontrar-se,
Seja lá o que for a ser encontrado.
Pelo temor da novidade,
O mundo se pare na renovação de seus absurdos.
A estética é infame,
Um repetir de constante clausura em sua insensatez.
Nada mais se revela,
Não há luz bastante…
Tudo não passa de vaidade,
Da ridícula presunção de se saber
Aquilo que queimará
Nas páginas de um passado obsoleto.
Hoje se arregala os olhos
A toda imensa grandeza.
Amanhã se lamentará a mediocridade
Desse dia insignificante.
Quem sabe, valha mais o sorriso de uma criança
Do que todo o glamour do mundo?
Quem sabe?
Talvez, a grande sabedoria
Esteja em realmente não se saber,
Mas em se estar aberto a reaprender.
Em caminhar novamente os passos,
Em dar à vida, não caminho,
Porém pernas.

Ando meio cansado,
Meio, não, muito…
Esgotado, pelo bem da verdade.
Minha poesia só é lamento.
Contudo, o que se espera de um velho?
Eu já o era desde que nasci,
Assim, não chorei
No momento de vir ao mundo,
Mas lágrimas não me faltaram
Em meus muitos passos.
Ultimamente, creio,
Que seria melhor recolher-me no sótão
E de nenhuma forma dialogar
Em absoluto com ninguém…
Com nada.
Seja através de versos,
Seja não caminhar pela rua,
Em não dar de mim aparência.
Porém, a poesia me toma
E me seduz pela paga de seu grito.
Não tenho eu sido
Tão desgraçadamente mais isso?
Um grito que encarna muitas vozes,
Completamente possuído pelo mundo?
Algo em mim não me mata
E outro não me traz à vida,
E eu vou vivendo no limbo de mim mesmo,
Numa alternância de desencontros.
Ora mergulho na escuridão de tudo além.
Em outra reluzo em minha completa ausência.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em março 16, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , , ,

 
%d blogueiros gostam disto: