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Não há máscaras em mim

Não há máscaras em mim
Carnaval em Veneza

Carnaval em Veneza

Não há máscaras em mim,
Sou a ferida aberta da tragédia humana.
Não oculto meus pruridos,
Não nego o sangue que escorre pelas muitas feridas,
Não procuro ocultar minha estultícia,
Nem velar minha ignorância
Através do brilhantismo de frases alheias.
Em mim a única coisa que vale
É um corpo que quando morto,
Possa ser útil a quem o disseque
E possa aprender sobre tais ruínas.
Sou péssimo em falar de alegrias e contentamentos,
Mas ainda assim sei sorrir
E passar momentos agradáveis.
Sou a cada dia o urso que volta para a caverna
E mergulha na escuridão de mim mesmo.
Possa ser que eu um dia seja feliz,
Assim tão completamente,
Como um menino que se lambuza de algodão-doce.
Porém, não agora, não, não neste exato instante.
Não que eu seja infeliz,
Ou que a vida não me tenha dado os instrumentos necessários.
Se não sou feliz é porque meus pés sangram
Na estrada que tomei por via.

Não há máscaras em mim,
Verdadeiramente não.
Sou o vômito do mundo
E o regurgitar de sua impotência.
Na minha boca só o fel das incertezas,
A máxima virtude de toda a minha ignorância.
Há quem saiba viver. Eu não.
Em minha vida não há paliativos, consolos,
Talvez um pouco de ilusão e sonho,
Atrevendo-me, possível poesia.
Poesia para mim não é desabafo,
É o retrato exato dos delírios que tenho.
Nela vivo os amores e as dores do mundo inteiro
E a exatidão de todos os meus.

Uma vez, num canto da sala,
Encontrei-me profeta.
Eu era capaz de ver a mim e além.
Tudo se iluminava, nada me era oculto.
Olhava no espelho do tempo
E tudo a mim se escancarava
Feito o som de mil trovões.
Estava possuído de mim mesmo,
Não distante como estou agora.
Mesmo o ar tinha um cheiro,
Mesmo certo perfume,
Que agora já não mais existe.
O sol que nascia era outro, a lua…
Talvez sejam meus olhos,
Talvez a minha cegueira.

Meu canto se tornou triste,
Tão imensamente como tudo o que sinto.
Se não fosse a poesia,
De certo teria sucumbido
À fome de mim mesmo,
De algum entendimento sobre minha alma
E seu inexorável destino.
— Se destino o há!

Para todo mundo o céu é azul,
Talvez venham nuvens e chova,
Mas pontualmente depois disto,
Nasce o sol iluminado.
Meus dias? Há!
Meus dias são trevas,
Nuvens de dúvidas e tribulações.
Minha vida não é pesada,
Sou eu quem leva a gravidade de mim e do mundo,
Esta carga imensa e tola a que me propus.
Em minha vida não há Jesus
Que me console, fé que me enleve,
Sabedoria que me acalme. Nada.
Nada, absolutamente nada tem poder
Sobre toda a dor que imensamente sinto.

Tenho cultivado umas plantas
E dado comida aos pássaros.
Nada sei do que pensam e sentem sobre isso.
Apenas comem e matam a fome
E eu morro de fome de mim mesmo.
A eles importa o alimento que ponho,
A mim sonego o que sou,
Se é que alguma coisa eu seja.
Tenho buscado ser razoável,
Porém não consigo de nenhuma forma.
Talvez a loucura tenha me tomado,
Talvez a própria razão.
Tudo é tão imenso, superlativo,
Um total absoluto de asneiras,
Porque tudo o que constato
Em nada me é útil.
A grande sabedoria do mundo,
Possa sê-la,
Está em não saber de absolutamente nada.
Quanto mais se mergulha na existência,
Mais se afoga no pântano da desilusão.
Talvez o mundo seja apenas para se passar,
Assim como um transeunte que percorre
Todo o dia uma rua
Na direção de seu trabalho,
Mas nunca se sentou
À mesa do bar para um café,
Ou para um drinque qualquer.
Talvez o mundo seja fosso,
Contudo quem nele adentrar,
Que tenha certo a escada,
Pois o mundo é enorme garganta
A que tudo engole.

Uma vez eu fui menino,
Assim, daqueles pequenos,
Dos que corava de vergonha
Por ser repreendido,
Ou por pensar numa molecagem.
Era menino e homem,
Pois imaturo já pensava o mundo.
Talvez meu maior pecado tenha sido
Querer saber os mistérios deste mundo,
Melhor se filosofasse o ócio dos dias.
Minha ciência cresceu na exata proporção
Da constatação da minha insolúvel ignorância.
Quanto mais se arregalavam meus olhos,
Mais cego eu me tornei.

De mim não tenho piedade.
Fui eu quem abriu a picada.
Não trilhei caminhos outros
Que não sejam aqueles que eu próprio abri.
Não sou niilista
— sou até bastante contemplativo
E algo assim… Espiritualista. —
Entretanto, sou lavado de crenças
Tal qual uma roupa puída
De tão esfregada pela pedra.
Não me venham dizer nada,
Sou assim.
Ninguém melhora pela fé.
A fé é como qualquer droga,
Seja ela vendida na hóstia,
Ou no texto de qualquer filosofia.
Não há que se ter desespero nestas coisas,
Falo o que penso.
Cada um tenha o que tenha,
Ainda que o que possua
Seja o mais absoluto nada.

Existe uma consolação na vida:
Ela cessa.
Nisso há uma grande sabedoria,
Se sabedoria possa ser o fim de alguma coisa.
Vão se lamentar os que estão em gozo,
Mas se aliviam os que sofrem.
A vida é tal qual é,
A cada um cabe vivê-la
E assim como puder.
Uns têm sentido, outros não,
Uns felizes, outros…
Cada um segundo a droga que ingere ao nascer.

O menino construiu um castelo na areia da praia,
Lindo, imensamente belo.
Os pais sorriram…
Veio o mar e levou.
— Não chore, menino.
Ainda há areia,
Em ti outros castelos
E muito além todo o mar.

S. Quimas

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Publicado por em janeiro 31, 2016 em Poesia

 

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