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Arquivo da tag: memórias

Aqui deixo

 

Daniel Sprick

Daniel Sprick

Aqui deixo
Minhas todas as memórias.
Não sei se fui torpe,
Sujo de linguajar,
Ou de certa forma contundente.
Talvez, pela dificuldade
De me expressar a contento,
De não ter certas as palavras
— com elas tenho lutado uma vida inteira.
Palavras não ofendem,
Nem são capazes de conquistar,
Mas sentimentos
E, talvez, motivações, sim.
Palavras são como vestes de nossos espíritos.
Dizem soberbamente de tudo
E podem ser apenas falsas
Premissas moldadas
Pelo oculto nosso descontentamento,
Ou fantasias de uma felicidade mascarada.
Há alegria em se viver, gozo.
Contudo, há às vezes dor
E a sensação de absoluto fastio.
A vida segue como um rio
De águas outras a cada instante,
Mas o mesmo rio
E mais absolutamente
Nada.

S. Quimas

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Publicado por em maio 30, 2017 em Poesia

 

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Divagação

NGC 602

Pomos traços entre as estrelas
E chamamos a isso constelação.
Pomos o mesmo
Entre nossos momentos
E a isso chamamos recordação.
Temos essa tendência de aprisionar,
De compartimentar,
De nos apegarmos assim
À imensa ilusão de que se desse modo fizermos
Tudo será estável,
Nada nos escapará
E a vida não escoará como água por entre nossos dedos.
Eu tenho vivido tempo bastante
Para saber da inutilidade de todas as coisas
E que tudo isso que semeamos
Não passa de apenas de um brinquedo,
Um mero passatempo,
Um jogo de palavras-cruzadas.
Tanta responsabilidade e seriedade,
Tanta sisudez…
Para quê?
Tudo se esvai num suspiro.
Melhor viver embriagado de todo o agora,
Do que lúcido de memórias.
O que tenhamos vivido é somente contemplativo,
O que nós é vida de fato
É a imponderabilidade e o incerto instante
Do que de fato vivemos. Agora.
Eu sempre fui vizinho da morte,
Mas no leito de minhas paixões
Sempre coabitei com a vida.
Parecia-me mais razoável que fosse,
Apesar de que a morte também me seduzisse.
Porém, a vida tinha lá uma coisa
Que sei lá! Era a vida…
Tenho me cansado de todo o fado,
Pois a vida me tem sido amante exigente
E me esgota o entendimento e o corpo,
Furta-me a mim mesmo
E me soma mais dores
Do que orgasmos.
Já precinto que é amante leviana
E que me há de abandonar repentinamente,
Não deixará sequer bilhete,
Irá assim me abandonar pura e simplesmente,
Certa de que fez,
Como qualquer prostituta,
O melhor serviço.
O preço que eu paguei?
Não foi barato.
De fato,
Tudo:
Ter existido.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 6, 2016 em Poesia

 

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Eu não deixo retratos

 

Albrecht Dürer - Autorretrato

Albrecht Dürer – Autorretrato

Eu não deixo retratos
De minha perdida vida em três por quatro…
Eu escancaro na mais alta resolução
O incompreensível de todas as minhas incertezas.
Não ando em sombras que possam velar
O sinal inexorável de minha pequenez.
Ao contrário, se chagas eu tenho,
Se maculado ou o que eu tenha,
Grito ao mundo toda a minha controvérsia.
Alguém me creu são?
Ah, me perdoem os dissimulados!
Onde haveria sanidade em quem a poesia possuiu?
Sanidade é para gente reta,
Não para quem, poeta,
Faça tal coisa: poesia.

Tem-se do poeta uma imagem muito lírica.
Vive ele alçado ao Olimpo,
Convivendo entre deuses.
Mal se sabe a sua sorte
E o fardo que carrega.
— Vês ali? É um poeta…
— Oh! Tanta beleza…

Não digo que belezas e sentimentos sublimes não há.
Não haveria de ser de outra forma,
Pois poeta é assim:
Cata migalhas de algum bom sentimento do mundo
E chafurda em sua excrecência.

Ah, como são doces e perfumosas as flores,
Quão belo o dia que nasce iluminado,
O hálito da terra quando cai a chuva…
Quanta beleza, quanta imensa beleza.

O mundo se colore de cores.
Cada um e ser tem sua sensibilidade.
Uns percebem, outros limitados, não.
Será somente o mundo o que se percebe?
Não haverá uma alternativa aos sentidos?

A noite caiu…
Agora as estrelas riem do meu fado.
Grandes prostitutas! Levianas!
Digo-lhes: as estrelas não passam disso.
Foram existidas (perdão, mas sigo)
Para durarem imensamente.
Porém, têm uma vida monótona.
Iluminam, alimentam umas bolinhas
Parasitadas por umas criaturas ínfimas,
Essas que dão o nome de vida.

Talvez eu esteja certo em muitas coisas
E em outras não.
Mas o certo pelo certo e o errado por outro,
Resolve-se na constatação da imprecisão
Do que são todas as certezas,
Sejam elas religiões, filosofias, ciências,
E acima de tudo o que penso.
Nada disso vale tostão furado,
Pois tudo se transforma e a mente se alarga
E o que era hoje…
Certamente amanhã não será.
Ou será?

Quem se dá o trabalho de ler os meus garranchos
Deve muito em fazer o sinal da cruz.
Chega de martírio:
Regurgitar o próprio vômito de suas memórias
Já é um enorme padecer.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 4, 2016 em Poesia

 

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