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Estamos em época de Calígula

Dave Patchett - Civilização Perdida

Dave Patchett – Civilização Perdida

Estamos em época de Calígula. Aqui não é Incitatus promovido a senador, mas amebas parasitas. Os verdadeiros “grandes” demônios se ocultam na sombra e elegem seus asseclas. As mãos são extensões de braços ocultos. Não só aqui, mas em um plano para o mundo inteiro. Elegem heróis, destronam outros.
A verdade? Quem a poderá dizer?
A cada instante nos empobrecemos de clareza, nos esvaímos de fraternidade. Somos consumidores consumidos pelas retóricas. A todos os momentos construímos crenças, que não passam de falácias manipuladas.
E se o mundo acabasse agora? Não sei. Vejo a quase totalidade humana despreparada para a cooperação, vejo zumbis famintos. Gente que acredita que a porrada é a solução.
Bando de imbecis. Quem semeia e colhe e reparte é quem trás a divindade ao mundo. A verdadeira.
Somos uma aldeia esquecida. Ah, meu amigo! Sou um idealista idiota com uma ideia profana.
Acredito nos pequenos gestos de gentileza, de amizade e humanidade, aqueles do dia a dia, de cada instante. Aqueles que nos transformam, essencialmente. E, quiçá, a partir de nós o mundo inteiro.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 3, 2017 em Outros Textos

 

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Nona Sinfonia

Máscara mortuária de Ludwig Van Beethoven

Máscara mortuária de Ludwig Van Beethoven

Como posso dizer ainda ao mundo,
Se todas as vozes em meus ouvidos
Calaram-se há muito?
Das notas melodiosas que toco,
Essas que cantam as canções de anjos,
Dos lumiares, de estrelas sem fim?
Como posso dizer das imensas grandezas
Que viajam em minha alma,
De todas as melodias que a invadem,
Que assim me tomam por completo?
Como posso, se meus ouvidos se emudeceram?
Como posso continuar a produzir,
Trazer a divindade que me invade,
Se como a cegueira, algo me tomou,
E meus todos caminhos são incertezas?
Como posso prosseguir se me amputaram as pernas,
Não essas que caminham deveras,
Mas a do dom celestial que a mim foi designado?
Como posso? Como posso prosseguir?
Tenho vivido entre os homens
E, de todo, os desconheço.
Tenho me negado, me encontro em abandono,
Porém persevero por todos.
Um dia seremos irmãos.
Ah! Um dia seremos.
Recusaremos todas as potestades
E seremos senão nossa imensa divindade.
Assim nos reconheceremos
Apenas
Filhos de Deus.

S. Quimas

 
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Publicado por em janeiro 1, 2017 em Poesia

 

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Sofro nos meus versos

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Sofro nos meus versos
Como um cão imundo jogado à sarjeta.
Quem saberá de mim
Senão eu mesmo?
Eu que já não me sei
E por completamente me abandono.
Já cansei de minha poesia.
Ela assim só diz de mim
E de minhas totais renúncias.
Queria o veludo das situações
E não a aspereza dos fatos.
Mergulho num horizonte de cegueira
Ao qual nem a mim enxergo.
O que falo é balbucio,
Um esgar de contradições.
Meus céus são nuvens,
Não que nisso não haja beleza,
Mas quero o azul pleno,
O sol rasgado.
Ah, fado que me persegue,
Transtorno que me transtorna,
Morte que me ronda
Com ares de quem consola!
Se eu me liberto e por renúncia a que eu sou
E não pela controvérsias de opiniões.
Já de tudo que se passa
E aquilo que jamais vi ou senti,
Sou assim completo abandono
E minha única virtude é ser poeta
E derramar palavras.
Quisera ser mudo de mente,
Nada pensar e não ter nada a dizer,
Ser uma entropia.
Porém, algo me domina além da força que possuo
E me move a grafar com a pena
Aquilo que não é de mim
E que pertencente ao mundo por completo.
Sou sequaz da abstinência da humanidade
De toda a felicidade,
A encarnação de sua maldita falência.
Abandono-me sem rumo
Ao esmo de minha concupiscência,
Dos lastros de minhas dores,
Do sufocamento de minha total inconsciência.
Já não me atrevo à sorte.
Não a tenho.
Sou o andrajo de uma quimera,
O roto estado de minhas circunstâncias,
Um execrado que só delira.
Transformo em versos
As minhas mais contumazes vicissitudes.
E pergunto: para quê?
Melhor seria me calar.
Mas quem contém
Um vômito?
E eu fico aqui a psicografar
A mensagem tortuosa
De um mundo inteiro
E nada colho do canteiro
Senão a ausência de flores.
Nisto restam rumores,
Mas não a melodia da música.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 4, 2016 em Poesia

 

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Eu não penso

Mendigo, sem-teto.

Eu não penso,
Mas logo visto.
Visto em mim as vestes do contrassenso da humanidade,
Despido de certezas e das verdades,
Essas tão caras a todos
Que amam o absoluto de sua hipocrisia.
Não sou poeta?
Se o fosse poesia faria.
Faço a exaltação em palavras
Do arremedo de meus sonhos
E escarno em versos as minhas imensas feridas.
Perdoem-me aqueles que esperavam de mim
Algo que não a pequenez de tudo isto.
Não sou profeta, não sou Deus,
Nem sequer religioso sou,
Quanto mais divino.
Sou quimera, caixa de Pandora,
Vim destruir a comodidade,
Não por ser absolutamente a Verdade,
Essa falácia conceitual.

Gritam-me que sou niilista,
Não sou.
Niilista é quem se condena a seus conceitos pétreos
E não é capaz de arquivá-los nas nuvens
De sua transformação.
Quem não percebe o momento
E o caleidoscópio que é a vida.
Sou contemporâneo de minhas paixões
E ancião de meus desejos.
Tudo se esvai como tudo se esvai,
Assim como a água que se escoa em um rio.
Haverá o rio de abraçar o mar?
Quem sabe? Muito rio simplesmente seca.

Não há pessimismo em mim.
Não vejo sentido em sê-lo
E nem em ser de todo modo otimista.
Há, sim, uma gravidade em compreender
Que a vida é apenas o que é
E exatamente… Mais nada!
Mesmo que ruminemos sonhos e regurgitemos esperanças,
A vida segue como ela é.
Simplesmente porque é a vida que vivemos,
Seja bela ou uma triste carranca
É a que temos.
Quem poderá sorrir
As lágrimas que jamais sentiu
Escorrerem por sua face?
Não há lembrança e risos
Daquilo que jamais se viveu.

Cheguei à conclusão
Que de certa forma somos insanos
E somos melhores quanto o mais somos.
Gente dita normal
É um engano na criação,
Só perturba o êxtase de quem
Goza em profundidade com as estrelas.

Caminho farto de tudo isso
E o mundo para mim
Não passa de uma coleção absurda de equívocos,
Um triturar de solidões regadas de abraços
Sem a profundidade do desejo e do sentimento.
O mundo é uma coberta esfarrapada,
Um andrajo fedorento de boa estampa,
Que mal cobre e aquece
O mendicante deitado
Na sarjeta de suas crenças.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 12, 2016 em Poesia

 

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A verdadeira cura para os problemas do ser humano

Leão e filhotes

A verdadeira cura para os problemas do ser humano não pode ser dada pela medicina, mas pela extirpação de suas crenças estapafúrdias. Tal coisa não se faz com um bisturi, mas pela educação libertadora e pelo desenvolvimento de consciência de si mesmo e de tudo além. Isso não é resultado de adquirir informação e conhecimento, mas fruto da capacidade de discernir, de pensar com lógica e amar à razão. É ter em contraponto, a capacidade de se emocionar e sentir em profundidade à vida e aquinhoar cada instante e cada vivência como únicos e especiais.
A mais profunda reflexão vem da compreensão de que não estamos aqui para a materialidade, não para servi-la, mas para utilizá-la como instrumento à construção de nós mesmos. Não que sejamos de todo néscios, porém que somos viajantes e, de certa forma, devamos usufruir do caminho, meio desapegados e com o espanto de uma criança frente a uma descoberta.
Perdemo-nos muito em nossa seriedade e limitamos os caminhos da revelação. Somos formais excessivamente em nossos conceitos e bradamos que a vida é séria. A vida não o é. É um jogo curto demais e nos mostra que devemos ser deuses brincalhões.
A dor do mundo em boa parte tem como causa a perdida capacidade de ser infante. Nós nos tornamos absurdamente sérios demais, adultos demais. Não rimos e, muitas vezes de fato, nos incomodamos com a felicidade e risos alheios, como se ser feliz fosse o maior pecado. Imolamo-nos na intransigência de nossas justificativas e “imensas” responsabilidades.
O mundo não se construiu a partir de nossa retidão e não findará devido ao nosso ócio. É o mundo, uma construção abstrata da leviandade de uma raça que sonega a si mesma a possibilidade de felicidade. A vida é dura: mate essa crença, pois ela se replica de modo infindável em tudo o que se vive e em tudo ao redor, tornando à vida uma angústia.
Não há ao que se obedecer, senão à própria consciência, mas à consciência de fato e não ao conjunto de informações e conhecimentos implantados, à lavagem cerebral, às crenças.
O tempo “ruge” e o leão simplesmente se espreguiça na savana e, preguiçoso, continua a dormir, satisfeito com aquilo que lhe coube para que sobrevivesse e viver mais um dia.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 9, 2016 em Poesia

 

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Acabou…

Pierre Julien (French, 1731-1804) - Gladiador Morto.

Pierre Julien (French, 1731-1804) – Gladiador Morto.

Acabou…
Acabou o dia,
Apagaram-se as luzes,
Cessaram-se as vozes.
Só permaneceu no mundo
A trágica liturgia do silêncio.
Mas tudo não cessaria?
Não haveria de ter um termo?
Ainda a um naco de instante tudo era perfeito,
Porém desconstruiu-se em um lapso.
A Terra gira e nem uma esfera é,
Apenas um naco desforme,
Uma pedra sem forma agradável
Disfarçada por águas.
Uma imensa mistificação cósmica.
E todo o resto, o que é,
Senão o plágio do que ela suporta?
Não há outra possibilidade senão a quimera,
A farsa doentia de todas as crenças,
De tudo o que nos engana
E nos leva a crer em subterfúgios à razão.
Nossas mais caras crenças
Não resistem à consciência.
Por isso, somos aqueles que fogem,
Os que se iluminam de sombras
E somos apaixonados por tudo que é obscuro,
Sem sentido,
Torpemente velado por uma fé
A que não se interpõe questão,
Dogmas de imprecisão.
Somos esses remendos em andrajos de compreensão,
Agarrados a mistificações.

Acabou…
Nada mais resta,
Senão o dolo, o escárnio pela idolatria,
Pela renúncia descabida de si mesmo.
Pela covardia em lançar-se a esmo
Em não temer reencontrar-se,
Seja lá o que for a ser encontrado.
Pelo temor da novidade,
O mundo se pare na renovação de seus absurdos.
A estética é infame,
Um repetir de constante clausura em sua insensatez.
Nada mais se revela,
Não há luz bastante…
Tudo não passa de vaidade,
Da ridícula presunção de se saber
Aquilo que queimará
Nas páginas de um passado obsoleto.
Hoje se arregala os olhos
A toda imensa grandeza.
Amanhã se lamentará a mediocridade
Desse dia insignificante.
Quem sabe, valha mais o sorriso de uma criança
Do que todo o glamour do mundo?
Quem sabe?
Talvez, a grande sabedoria
Esteja em realmente não se saber,
Mas em se estar aberto a reaprender.
Em caminhar novamente os passos,
Em dar à vida, não caminho,
Porém pernas.

Ando meio cansado,
Meio, não, muito…
Esgotado, pelo bem da verdade.
Minha poesia só é lamento.
Contudo, o que se espera de um velho?
Eu já o era desde que nasci,
Assim, não chorei
No momento de vir ao mundo,
Mas lágrimas não me faltaram
Em meus muitos passos.
Ultimamente, creio,
Que seria melhor recolher-me no sótão
E de nenhuma forma dialogar
Em absoluto com ninguém…
Com nada.
Seja através de versos,
Seja não caminhar pela rua,
Em não dar de mim aparência.
Porém, a poesia me toma
E me seduz pela paga de seu grito.
Não tenho eu sido
Tão desgraçadamente mais isso?
Um grito que encarna muitas vozes,
Completamente possuído pelo mundo?
Algo em mim não me mata
E outro não me traz à vida,
E eu vou vivendo no limbo de mim mesmo,
Numa alternância de desencontros.
Ora mergulho na escuridão de tudo além.
Em outra reluzo em minha completa ausência.

S. Quimas

 
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Publicado por em março 16, 2016 em Poesia

 

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Encerrei meu tempo

Rembrandt Harmezoon Van Rijn - Um Idoso em Trajes Militares

Rembrandt Harmezoon Van Rijn – Um Idoso em Trajes Militares

Encerrei meu tempo
Nesse jogo impreciso chamado vida.
Já fiz o que podia.
São tantas as feridas!
Minha alma é quase somente chagas.
Na praça, o realejo.
Velho matreiro e seu macaco.
Comprar-lhe-ia um bilhete,
Mas nenhum tostão no bolso,
Tão vazio como minha alma.
Vazio de mim mesmo,
De disputas para ver os versos
De quem os faria mais.
Nasceu ali no canto uma flor,
Mas já a mim não importa.
Notei… A flor.
Mas não importa mais,
Pois nada mais importa,
Pois não renasço mais.
Tudo viceja à minha volta,
Porém dentro de mim tudo sucumbe.
Simplesmente assim, sucumbe.
Minha alma é um deserto
Coalhado das flores de outrora.
Agora, ai agora!
Em outra hora
Eram sorrisos…
Agora, algo tão impreciso,
Que nem eu sei.
Tudo pode e tudo é nada.
Precisamente, pontualmente, nada.
O meu vizinho, imaginário,
Comemora a sua inexistente alegria.
Talvez um sofá novo, sei lá!
Não me importa.
E o que exatamente há de me importar?
Talvez o sonho que tive esta noite
E que já não me lembro?
Não tenho dúvidas,
As certezas de absolutamente nada
Já preenchem a totalidade da minha existência.
Um dia um grande poeta disse…
Nem disso me lembro,
Contudo me restou o sentimento
Daquilo que li.
Era belo, fabuloso,
E quando penso na pequenez
Da minha existência…
Nada sei de mais nada,
Nada sei.
O mundo gira
E eu com ele.
Um absurdo por constatar
Que tudo anda
E eu permaneço
Qual estaca fincada
Em meio ao campo
Sem a menor razão.
Que é ser poeta?
Um vômito de belezas?
Uma sina de revelações?
Dourar o que de pobre há?
Poesia é loucura,
A mais completa de todas as insanidades.
Poesia é revelar verdades,
Que só os sentimentos integralmente percebem.
Não desejei tal sorte,
Preferível talvez a morte.
Quem sendo são gostaria
De levar a carga do mundo?
A dor imensa de todas as almas.
E, pior, a sua.
A poesia clama, verseja, diz…
O que diz?
Meus ouvidos a ouve,
Mas me tortura o que ouço.
Vozes, muitas, me falam.
Estou embriagado de tudo isso.
Não é só a loucura
É a completa razão de sentir,
Assim por completo,
Assim enormemente.
Aqui tudo me devora
E me consome por completo.
Lá fora, umas gotas de chuva.
Amanhã, talvez eu acorde
E tudo será de novo
Possibilidade.

S. Quimas

 
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Publicado por em janeiro 31, 2016 em Poesia

 

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