RSS

Arquivo da tag: nada

Eu não busco mais nada

 

Constelação do Cisne.

O Cisne

 

Eu não busco mais nada.
Vivo das sombras
De um rascunho jamais publicado,
Pois se o fizesse,
Se assim o trouxesse à luz,
Crucificaria a humanidade inteira
Que ainda grita dentro de mim.
Nada em mim é razoável,
Nada é em mim senão quimera.
Caixa de Pandora:
Abra-se e meu mundo sucumbe.
Sou um derrotado.
Um naufrágio antecipado,
Uma rota ao desgoverno,
Fadada a ser engolida
Pelos monstros de minhas crenças.
Quem sabe meus absolutos
Se convertam em meras crenças
E se diluam em todas
As minhas constantes e imensas
Incertezas?
Quem sabe, sem qualquer alarde,
Eu me reconstrua em escuridão
Salpicada de estrelas
E todo o Universo habite em mim?
Quem sabe o que não sei
E o que haverei de ser se faça?
Quem sabe? Eu não sei.
Trago discursos de imagens,
Poesia fétida,
Respiração frente ao espelho.
Ele se embaça
E minha imagem se perde.
Sou apenas o que sou:
Um que caminha na névoa,
Engolido por todas as certezas
E, por completo,
Sequestrado por suas ilusões.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em maio 6, 2017 em Poesia

 

Tags: , , , , ,

Passeio em minhas lembranças

cropped-2701604000052172497tkonqt_fs.jpg

Passeio em minhas lembranças,
Estrada longa e intrincada
Como a teia de uma aranha.
Caminho leve e precavido
Para não me tornar prisioneiro.
Sou astronauta
De mundos há muito vividos,
Mas que não são solo firme.
Muitas vezes a realidade
Confunde-se com todos os sonhos
E os todos os meus desejos,
Daquilo que fora minha ânsia.
Quando folheio o livro de minha vida
As palavras todas se movimentam,
Feito o mar que jamais se acalma
E se faz maré a ir e vir
E roubar o sossego da areia.
Olho lá bem longe o horizonte
E vejo que já tive o desejo de cruzá-lo.
Enfrentaria o mar, todas as incertezas,
Apenas para saber o que há além.
Que fosse nada,
Que fosse tudo,
Que apenas coubesse em meus sonhos.
Eu era menino
E a grandeza da minha vida
Era ouvir todo o mar numa concha.
Quão era belo
E maior que tudo que tive depois.
Tenho deixado uma obra imensa e incessante,
Uma verborragia
Que atinge o limite da loucura.
Mas o mundo
Não deseja os loucos,
Se os quer,
Querem-nos trancafiados,
Mudos, ignorados.
O mundo é uma carga ao meu sonhar,
Torna-me lúcido,
Enquanto o que mais desejo é o delírio.
Sonhar em versos,
Florescer belezas,
Pintar de cores outras
Tudo o que já se pintou.
Tingir o céu de preto
Só para admirar estrelas.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em maio 26, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , ,

Meu lugar é lá fora

 

Nebulosa no Órion (Hubble).

Nebulosa no Órion (Hubble).

 

Meu lugar é lá fora,
Não aqui dentro de mim,
Sob a proteção das camisas de força
Que se costuram de minhas certezas absolutas.
É bem lá fora…
Arremessado ao imponderável
E sujeito a toda descoberta.
Meu lugar é a imprecisão da estrada,
É o escarnar meus pés na virtude de seguir
E ser expectador da vida tão somente.
É concluir que nada jamais finda,
Que cada átomo que compõe meu corpo
Há de triunfar um dia
Na explosão de uma estrela
E que meu espírito
Prosseguirá em uma dimensão outra,
Em outra ilusão cheia de absolutas certezas.
Quanto mais sábio tenho me tornado,
Mais me desconheço
E mais me aprendo aparte de mim
E uno com tudo.
Já não sou sol que brilha solitário,
Mas galáxias e vazios,
Inundados de realidades possíveis.
Sou a mais franca loucura,
A perversão de tudo o que não seja contumaz.
Sou o completo tarô
E o arremesso da sorte.
O brilho e a escuridão,
As estrelas todas
E o nada.
Eu sou.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em abril 26, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , ,

Queria eu matar a inocência

Male_Nude

Queria eu matar a inocência
Que ainda teima em mim,
Só para não sofrer a metade
De tudo o que sou,
Como criança que ainda
Busca o colo de meus desejos,
Balbuciando coisas desconexas
Entre o choro de minhas renúncias.
Queria o desapego dos versos,
Calar-me a um canto
Da escuridão de minha cegueira.
Não ser senão controvérsia silenciosa
De minha luz diáfana,
Borboleta morta
Nas teias de minhas incompreensões.
Queria tudo
Por não desejar senão o nada,
O pão do banquete
De tudo aquilo que jamais viesse a existir,
Da memória de tudo que jamais vivi
E jamais viverei.
Queria apenas descanso
No sepulcro onde enterrei todas
As minhas mais caras ilusões.
Queria a parede cuspida de gestos,
Dos quais minhas mãos
Jamais articularam,
Mas que meus sonhos
Projetaram na imensidão
Da tela de minha total inconsciência.
Queria… Como queria tanto.
E a mim, basta-me
A grandeza do nada.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em abril 7, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , , ,

Eu sou silêncio

Paisagem - Autor não Mencionado

Paisagem – Autor não Mencionado

Eu sou silêncio
Enquanto tudo grita dentro de mim.
Não há imagens,
Pois meus olhos enxergam o infinito.
Tudo é controverso,
Mas ainda assim,
De uma exatidão
Tão palmável quanto o prumo de um pedreiro.
Queria ser poeta
E assim poder revelar sentimentos…
Faço, se for, versos,
Contudo nunca me soube poeta.
Minha escrita é muitas vezes torpe,
Um nada atrás de outro,
Impreciso como uma adivinhação.
Muitos se queixam de minhas delongas,
Outros de minha “curteza”.
— A quem satisfarei?
Só satisfaço a mim mesmo
E à minha loucura.
Sou opróbrio de minha desventura,
A sarjeta da minha ignomínia,
O mais alto grau de tudo o que é vão.
Meus versos são pausas
Em minha imensa dor,
Pois fazem calar
E, assim, gritam o nó de minha garganta.
Sou como aranha,
Tecendo infindáveis redes,
Para assim pescar.
Ela? Alimento,
Eu? O imponderável.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em março 4, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , , ,

As sombras das incertezas

Gustavo Courbet - Autorretrato

Gustavo Courbet – Autorretrato

As sombras das incertezas,
O tudo que não se declara,
O vir a ser e o nada.
Tudo vão,
Tudo imensamente nada.
O porquê de tudo,
O porquê de nada.
O simplesmente assim,
Um sem fim.
Gestos e palavras
E razão nenhuma.
Sombras de nós mesmos,
Arremedo de existências.
Dúvida e nada mais.
Por que seguir,
Se os caminhos são pedras
Que nos acutilam?
A poesia flui,
Mas eu estou paralisado.
Quem não está?
Já não ando
E nada em mim se aproveita.
Cego, já não vejo
E toda minha virtude é apenas viver.
Meus olhos se obscurecem,
Pois não veem mais.
A cegueira me domina,
Sou apenas um trôpego.
Mal caminho os horizontes indecifráveis
Da minha destruição.
Possa ser que faça canção,
Mas poesia não mais.
Tudo isso é dor,
A mais lancinante de todas
E sofro de tudo isso.
Sei de mim e nada mais.
Sei o que sofro.
E quem não?
Todos.
A diferença é que faço do sofrimento poesia.
Há quem se emocione,
Há quem objete.
Poesia é letra,
Uma infinitude de palavras
Muitas vezes sem o menor sentido.
Queria eu falar da aurora,
Mas o sol tarda em nascer.
Seria eu mais poeta
Por falar de coisas razoáveis?
Talvez melhor
Por jamais confessá-las…
Minha alma é um mundo inundado de sentimentos,
Algo tão desarrazoado,
Que jamais ciência ou filosofia
Há de resolver,
Quanto mais explorar.
A dúvida chega.
A loucura se espraia.
Serei em algum tempo razão?
Não.
Sou apenas o que sou
E nem um pingo a mais.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em fevereiro 18, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , ,

Não há máscaras em mim

Não há máscaras em mim
Carnaval em Veneza

Carnaval em Veneza

Não há máscaras em mim,
Sou a ferida aberta da tragédia humana.
Não oculto meus pruridos,
Não nego o sangue que escorre pelas muitas feridas,
Não procuro ocultar minha estultícia,
Nem velar minha ignorância
Através do brilhantismo de frases alheias.
Em mim a única coisa que vale
É um corpo que quando morto,
Possa ser útil a quem o disseque
E possa aprender sobre tais ruínas.
Sou péssimo em falar de alegrias e contentamentos,
Mas ainda assim sei sorrir
E passar momentos agradáveis.
Sou a cada dia o urso que volta para a caverna
E mergulha na escuridão de mim mesmo.
Possa ser que eu um dia seja feliz,
Assim tão completamente,
Como um menino que se lambuza de algodão-doce.
Porém, não agora, não, não neste exato instante.
Não que eu seja infeliz,
Ou que a vida não me tenha dado os instrumentos necessários.
Se não sou feliz é porque meus pés sangram
Na estrada que tomei por via.

Não há máscaras em mim,
Verdadeiramente não.
Sou o vômito do mundo
E o regurgitar de sua impotência.
Na minha boca só o fel das incertezas,
A máxima virtude de toda a minha ignorância.
Há quem saiba viver. Eu não.
Em minha vida não há paliativos, consolos,
Talvez um pouco de ilusão e sonho,
Atrevendo-me, possível poesia.
Poesia para mim não é desabafo,
É o retrato exato dos delírios que tenho.
Nela vivo os amores e as dores do mundo inteiro
E a exatidão de todos os meus.

Uma vez, num canto da sala,
Encontrei-me profeta.
Eu era capaz de ver a mim e além.
Tudo se iluminava, nada me era oculto.
Olhava no espelho do tempo
E tudo a mim se escancarava
Feito o som de mil trovões.
Estava possuído de mim mesmo,
Não distante como estou agora.
Mesmo o ar tinha um cheiro,
Mesmo certo perfume,
Que agora já não mais existe.
O sol que nascia era outro, a lua…
Talvez sejam meus olhos,
Talvez a minha cegueira.

Meu canto se tornou triste,
Tão imensamente como tudo o que sinto.
Se não fosse a poesia,
De certo teria sucumbido
À fome de mim mesmo,
De algum entendimento sobre minha alma
E seu inexorável destino.
— Se destino o há!

Para todo mundo o céu é azul,
Talvez venham nuvens e chova,
Mas pontualmente depois disto,
Nasce o sol iluminado.
Meus dias? Há!
Meus dias são trevas,
Nuvens de dúvidas e tribulações.
Minha vida não é pesada,
Sou eu quem leva a gravidade de mim e do mundo,
Esta carga imensa e tola a que me propus.
Em minha vida não há Jesus
Que me console, fé que me enleve,
Sabedoria que me acalme. Nada.
Nada, absolutamente nada tem poder
Sobre toda a dor que imensamente sinto.

Tenho cultivado umas plantas
E dado comida aos pássaros.
Nada sei do que pensam e sentem sobre isso.
Apenas comem e matam a fome
E eu morro de fome de mim mesmo.
A eles importa o alimento que ponho,
A mim sonego o que sou,
Se é que alguma coisa eu seja.
Tenho buscado ser razoável,
Porém não consigo de nenhuma forma.
Talvez a loucura tenha me tomado,
Talvez a própria razão.
Tudo é tão imenso, superlativo,
Um total absoluto de asneiras,
Porque tudo o que constato
Em nada me é útil.
A grande sabedoria do mundo,
Possa sê-la,
Está em não saber de absolutamente nada.
Quanto mais se mergulha na existência,
Mais se afoga no pântano da desilusão.
Talvez o mundo seja apenas para se passar,
Assim como um transeunte que percorre
Todo o dia uma rua
Na direção de seu trabalho,
Mas nunca se sentou
À mesa do bar para um café,
Ou para um drinque qualquer.
Talvez o mundo seja fosso,
Contudo quem nele adentrar,
Que tenha certo a escada,
Pois o mundo é enorme garganta
A que tudo engole.

Uma vez eu fui menino,
Assim, daqueles pequenos,
Dos que corava de vergonha
Por ser repreendido,
Ou por pensar numa molecagem.
Era menino e homem,
Pois imaturo já pensava o mundo.
Talvez meu maior pecado tenha sido
Querer saber os mistérios deste mundo,
Melhor se filosofasse o ócio dos dias.
Minha ciência cresceu na exata proporção
Da constatação da minha insolúvel ignorância.
Quanto mais se arregalavam meus olhos,
Mais cego eu me tornei.

De mim não tenho piedade.
Fui eu quem abriu a picada.
Não trilhei caminhos outros
Que não sejam aqueles que eu próprio abri.
Não sou niilista
— sou até bastante contemplativo
E algo assim… Espiritualista. —
Entretanto, sou lavado de crenças
Tal qual uma roupa puída
De tão esfregada pela pedra.
Não me venham dizer nada,
Sou assim.
Ninguém melhora pela fé.
A fé é como qualquer droga,
Seja ela vendida na hóstia,
Ou no texto de qualquer filosofia.
Não há que se ter desespero nestas coisas,
Falo o que penso.
Cada um tenha o que tenha,
Ainda que o que possua
Seja o mais absoluto nada.

Existe uma consolação na vida:
Ela cessa.
Nisso há uma grande sabedoria,
Se sabedoria possa ser o fim de alguma coisa.
Vão se lamentar os que estão em gozo,
Mas se aliviam os que sofrem.
A vida é tal qual é,
A cada um cabe vivê-la
E assim como puder.
Uns têm sentido, outros não,
Uns felizes, outros…
Cada um segundo a droga que ingere ao nascer.

O menino construiu um castelo na areia da praia,
Lindo, imensamente belo.
Os pais sorriram…
Veio o mar e levou.
— Não chore, menino.
Ainda há areia,
Em ti outros castelos
E muito além todo o mar.

S. Quimas

 
Deixe um comentário

Publicado por em janeiro 31, 2016 em Poesia

 

Tags: , , , , , ,

 
%d blogueiros gostam disto: