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Aqui deixo

 

Daniel Sprick

Daniel Sprick

Aqui deixo
Minhas todas as memórias.
Não sei se fui torpe,
Sujo de linguajar,
Ou de certa forma contundente.
Talvez, pela dificuldade
De me expressar a contento,
De não ter certas as palavras
— com elas tenho lutado uma vida inteira.
Palavras não ofendem,
Nem são capazes de conquistar,
Mas sentimentos
E, talvez, motivações, sim.
Palavras são como vestes de nossos espíritos.
Dizem soberbamente de tudo
E podem ser apenas falsas
Premissas moldadas
Pelo oculto nosso descontentamento,
Ou fantasias de uma felicidade mascarada.
Há alegria em se viver, gozo.
Contudo, há às vezes dor
E a sensação de absoluto fastio.
A vida segue como um rio
De águas outras a cada instante,
Mas o mesmo rio
E mais absolutamente
Nada.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 30, 2017 em Poesia

 

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Espere…

Arte: Alexander Voronkov

Arte: Alexander Voronkov

Espere…
Que em mim outros versos,
Vem assim, tão tolamente morrendo,
Nesses que escrevo.
São a renúncia à Eternidade,
O calabouço de tudo o que tenho criado,
A morte à mingua de um instante único
Que só pertencia ao seu tempo,
Aquele lá do qual foi furtado.
Agora, mofa nas páginas obscuras
De uma revelação descabida,
Um jorro de símbolos,
De grafismos em que não se enleia
O menor traço de sentimento,
Mas apenas um discorrer de palavras
Que se sabe lá!
Alguém há de entender.
Perdeu-se de seu rumo,
De seu porto de partida essencial
E está à mercê de um mar de infinitas interpretações.
Não quisera que houvesse sentido em tudo isso,
Nem que em versos se transformasse.
Que não houvesse forma,
Porém o mais puro e único sentimento.
Um sentir assim por completo,
Onde se calassem todas as palavras
E não houvesse sequer balbucio.
Não era para ser poesia.
De fato não,
Mas transbordou.
Talvez, para se lançar desse mundo plano,
No fim de todos oceanos
E morrer na infinitude
Das estrelas além.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 25, 2016 em Poesia

 

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Eu não penso

Mendigo, sem-teto.

Eu não penso,
Mas logo visto.
Visto em mim as vestes do contrassenso da humanidade,
Despido de certezas e das verdades,
Essas tão caras a todos
Que amam o absoluto de sua hipocrisia.
Não sou poeta?
Se o fosse poesia faria.
Faço a exaltação em palavras
Do arremedo de meus sonhos
E escarno em versos as minhas imensas feridas.
Perdoem-me aqueles que esperavam de mim
Algo que não a pequenez de tudo isto.
Não sou profeta, não sou Deus,
Nem sequer religioso sou,
Quanto mais divino.
Sou quimera, caixa de Pandora,
Vim destruir a comodidade,
Não por ser absolutamente a Verdade,
Essa falácia conceitual.

Gritam-me que sou niilista,
Não sou.
Niilista é quem se condena a seus conceitos pétreos
E não é capaz de arquivá-los nas nuvens
De sua transformação.
Quem não percebe o momento
E o caleidoscópio que é a vida.
Sou contemporâneo de minhas paixões
E ancião de meus desejos.
Tudo se esvai como tudo se esvai,
Assim como a água que se escoa em um rio.
Haverá o rio de abraçar o mar?
Quem sabe? Muito rio simplesmente seca.

Não há pessimismo em mim.
Não vejo sentido em sê-lo
E nem em ser de todo modo otimista.
Há, sim, uma gravidade em compreender
Que a vida é apenas o que é
E exatamente… Mais nada!
Mesmo que ruminemos sonhos e regurgitemos esperanças,
A vida segue como ela é.
Simplesmente porque é a vida que vivemos,
Seja bela ou uma triste carranca
É a que temos.
Quem poderá sorrir
As lágrimas que jamais sentiu
Escorrerem por sua face?
Não há lembrança e risos
Daquilo que jamais se viveu.

Cheguei à conclusão
Que de certa forma somos insanos
E somos melhores quanto o mais somos.
Gente dita normal
É um engano na criação,
Só perturba o êxtase de quem
Goza em profundidade com as estrelas.

Caminho farto de tudo isso
E o mundo para mim
Não passa de uma coleção absurda de equívocos,
Um triturar de solidões regadas de abraços
Sem a profundidade do desejo e do sentimento.
O mundo é uma coberta esfarrapada,
Um andrajo fedorento de boa estampa,
Que mal cobre e aquece
O mendicante deitado
Na sarjeta de suas crenças.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 12, 2016 em Poesia

 

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Meus melhores poemas são curtos e grossos

Rembrandt van Rijn - A ressurreição de Jesus

Rembrandt van Rijn – A ressurreição de Jesus

Meus melhores poemas são curtos e grossos.
Quase frases, balbucios…
Muitas síncopes e silêncios,
Palavras que dizem algo indefinível,
Coisas de significado duvidoso,
Absurdos e controvérsias,
Esgares de uma insanidade impublicável.
Mas são poemas.
O fino extrato
Da mais imensa poesia.
O que lhes falta em sílabas, rimas e versos,
Transbordam-lhes em sensibilidade.
Minha mente não é reta,
Deveria ter dito tal
Em confissão a um padre obscuro
Encarcerado em sua gaiola no confessionário,
Ou ter dito apenas
O tudo a ser dito e mais absolutamente nada.
Mas não…
O poeta é maldito
E lavra poesias atrás de outras,
Feito vulcão que não cessa de cuspir fogo pela boca.
É assim o desejo de tão falar,
Que já não diz nada em absoluto
Com a pretendida coerência.
Melhor dizer da essência
E calar tudo o mais.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 13, 2016 em Poesia

 

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