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Arquivo da tag: Pandora

Eu não busco mais nada

 

Constelação do Cisne.

O Cisne

 

Eu não busco mais nada.
Vivo das sombras
De um rascunho jamais publicado,
Pois se o fizesse,
Se assim o trouxesse à luz,
Crucificaria a humanidade inteira
Que ainda grita dentro de mim.
Nada em mim é razoável,
Nada é em mim senão quimera.
Caixa de Pandora:
Abra-se e meu mundo sucumbe.
Sou um derrotado.
Um naufrágio antecipado,
Uma rota ao desgoverno,
Fadada a ser engolida
Pelos monstros de minhas crenças.
Quem sabe meus absolutos
Se convertam em meras crenças
E se diluam em todas
As minhas constantes e imensas
Incertezas?
Quem sabe, sem qualquer alarde,
Eu me reconstrua em escuridão
Salpicada de estrelas
E todo o Universo habite em mim?
Quem sabe o que não sei
E o que haverei de ser se faça?
Quem sabe? Eu não sei.
Trago discursos de imagens,
Poesia fétida,
Respiração frente ao espelho.
Ele se embaça
E minha imagem se perde.
Sou apenas o que sou:
Um que caminha na névoa,
Engolido por todas as certezas
E, por completo,
Sequestrado por suas ilusões.

S. Quimas

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Publicado por em maio 6, 2017 em Poesia

 

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A vida me escoa pelas mãos

Retrato de Fred Ross - César Santos

Retrato de Fred Ross – César Santos

A vida me escoa pelas mãos
Como um pensamento que se perde
Ao se acordar de um sonho.
Quisera eu jamais acordar de todos os sonhos,
Quisera viver a completude,
Aquilo que é todo o meu desejo.
Mas, enfim, vivo o que me seja possível
E nem um dedo além,
Nem que isso seja um dedo amputado.
Guardo em mim todos os meus sonhos
E os do mundo inteiro.
Talvez por isso, seja tão perturbada a minha alma.
Talvez…
Ou simplesmente o é por ser minha alma
E nada mais profundo que isso.
Nada tão filosófico e excepcional
Que mereça reverências ou estudos.
Apenas minha alma…

Tenho desistido da vida
Mais fácil do que quem abandona uma mulher leviana.
Talvez quem o faça possa ter perdido alguma recompensa,
Porém minha vida tem por tesouro a desilusão.
Não passa de uma caixa de Pandora.
Mais próximo a um gesto obsceno
Do que propriamente algo de mínimo valor.

Outro dia, despretensioso, caminhava pela calçada,
Quando um brilho, junto ao meio-fio, me chamou a atenção.
Era um pequeno crucifixo, que, creio, se rompera de um colar.
Nele a fatídica imagem de um Jesus torturado.
— Por que adoram tais coisas?
Já não nos bastam todos os males deste mundo?
Não sei por que replicam indefinidamente
Tal gesto de tamanha crueldade e gozam com isso.
Na cruz não há deuses,
Apenas homens vilmente torturados —.
Continuei meu caminho após tomar a cruz na mão.
Não cabia em meus ombros,
Nem sobre a que já carregava.
Não haveria a ela de acrescentar ainda mais peso
Por tão banal filosofia.
Apenas segui e não pensei mais nisso.

Não há mais nada que deveria sentir,
Pois tenho acumulado sentimentos
Como um guri que junta figurinhas
Numa coleção que jamais se completa.
E quanto mais eu o faço
Mais tudo transborda de mim,
Feito inundação que devasta a terra
De todos os meus desejos e sonhos.
E quando tudo se acalma,
Olho ansioso pelo postigo
Da porta de minhas esperanças
E só consigo ver devastação.

Não é minha intenção declarar somente tristezas
E parecer que somente declamo dor e desgraça,
Que minha vida seja assim tão malfadada.
Para quem se arrasta travestido
Dos andrajos das sensações e emoções,
Que tolda a visão além da janela de seus limites
Com os andrajos das cortinas de suas impotências,
Que se alimenta de tamanhas vicissitudes,
Não sou feliz, mas não de todo desgraçado.
Tenho a poesia — ou ela me possui por completo,
Acho isso mais sensato.
Uso dos versos para dialogar comigo
E o universo inteiro e todos os seres.

Vem o vazio,
A embriaguez dos versos passa.
Durmo a hora, dispo a farsa.
Volto ao nada de mim.

S. Quimas

 
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Publicado por em fevereiro 4, 2016 em Poesia

 

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