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Não reconheço governo nenhum

Planeta Saturno

Planeta Saturno

Não reconheço governo nenhum,
Nem o de mim sobre mim mesmo.
Sou cidadão de todas as sensações que vivo,
De toda a idiossincrasia,
Sem rótulos, sem guaritas e medos abomináveis.
Não me precavi de mergulhos em abismos,
Somente me arremessei
E dei asas à vida
Sem ter qualquer certeza que as possuía.
Fiz de todo o fado delírio,
Fiz de quimeras e carrancas
O doce dos versos e de todas as visões.
Vivi e, assim por completo,
O que a vida me serviu por banquete.
Provei de amarguras, desilusões
E muitas vezes fui servido de pratos vazios.
Porém, vivi por completo
Mesmo toda a inexistência.
Não há em mim dor,
Mas por não sê-la
Dói-me tão intensamente
Quanto o parto de miríades de estrelas,
Explosão de luz na escuridão.
Queria ter sido muita coisa,
Ou apenas realizar,
Não que eu seja ou fosse o que faria,
Minha mão não é a semente
Que semeio no campo,
Contudo, jamais vou afirmar
Que não me transvista de tudo o que vivo
E que a tudo não incorpore.
Resta a poesia.
Ah, essa louca droga
Que me vicia e da qual não me desapego!
A ela eu não rejeito:
Que me sirvam os deuses pela Eternidade.
Agora me calo.
Cerro minha fala.
Não digo nada além,
Pois só quero tão somente
Uma vez mais me perder em sonhos.

S. Quimas

 

 
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Publicado por em junho 2, 2016 em Poesia

 

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Eu não penso

Mendigo, sem-teto.

Eu não penso,
Mas logo visto.
Visto em mim as vestes do contrassenso da humanidade,
Despido de certezas e das verdades,
Essas tão caras a todos
Que amam o absoluto de sua hipocrisia.
Não sou poeta?
Se o fosse poesia faria.
Faço a exaltação em palavras
Do arremedo de meus sonhos
E escarno em versos as minhas imensas feridas.
Perdoem-me aqueles que esperavam de mim
Algo que não a pequenez de tudo isto.
Não sou profeta, não sou Deus,
Nem sequer religioso sou,
Quanto mais divino.
Sou quimera, caixa de Pandora,
Vim destruir a comodidade,
Não por ser absolutamente a Verdade,
Essa falácia conceitual.

Gritam-me que sou niilista,
Não sou.
Niilista é quem se condena a seus conceitos pétreos
E não é capaz de arquivá-los nas nuvens
De sua transformação.
Quem não percebe o momento
E o caleidoscópio que é a vida.
Sou contemporâneo de minhas paixões
E ancião de meus desejos.
Tudo se esvai como tudo se esvai,
Assim como a água que se escoa em um rio.
Haverá o rio de abraçar o mar?
Quem sabe? Muito rio simplesmente seca.

Não há pessimismo em mim.
Não vejo sentido em sê-lo
E nem em ser de todo modo otimista.
Há, sim, uma gravidade em compreender
Que a vida é apenas o que é
E exatamente… Mais nada!
Mesmo que ruminemos sonhos e regurgitemos esperanças,
A vida segue como ela é.
Simplesmente porque é a vida que vivemos,
Seja bela ou uma triste carranca
É a que temos.
Quem poderá sorrir
As lágrimas que jamais sentiu
Escorrerem por sua face?
Não há lembrança e risos
Daquilo que jamais se viveu.

Cheguei à conclusão
Que de certa forma somos insanos
E somos melhores quanto o mais somos.
Gente dita normal
É um engano na criação,
Só perturba o êxtase de quem
Goza em profundidade com as estrelas.

Caminho farto de tudo isso
E o mundo para mim
Não passa de uma coleção absurda de equívocos,
Um triturar de solidões regadas de abraços
Sem a profundidade do desejo e do sentimento.
O mundo é uma coberta esfarrapada,
Um andrajo fedorento de boa estampa,
Que mal cobre e aquece
O mendicante deitado
Na sarjeta de suas crenças.

S. Quimas

 
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Publicado por em abril 12, 2016 em Poesia

 

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