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Eu não queria

Angelus - Jean François Millet

Angelus – Jean François Millet

Eu não queria…
Eu não queria,
Pois por simplesmente não querer.
Não queira ter dado o passo
E jamais ter caminhado em erro.
Não que de fato seja erro
Tudo aquilo que se vive,
Porém não vivo excluído do mundo,
Mas possa ser de mim mesmo.
Eu não queira ter abordado a vida
Estrangulando-a pela garganta.
Talvez, devesse ter sido mais ameno,
Não tempestade, mas sereno que cai
Em uma noite qualquer da existência.
Não queria ter procrastinado
E nem retardado o fim,
Começando tudo e nada ter arrematado.
Sou um colecionador de sonhos,
Um visionário consumido
Pela droga de se iludir.
No campo em que cultivo a vida,
Não há de se andar senão em nuvens.
Magníficas, aliás, só as lastimo
Quando me encobrem as estrelas.
Eu não queria ter tido a afeição
E, assim, derramado sobre mim,
Todo o amor recebido,
Que foi tão vilmente sequestrado,
Não por quem me tenha dedicado,
Porém pela minha inépcia
Em tê-lo alimentado.
Sou péssimo com tudo,
Um inapto, um destruidor da própria felicidade.
Contudo, toda vela é curta
E há de se apagar uma hora.
Minha alma não clama mais
Que de alguma forma não se extinga.
Já fiz o convite à festa.
Nela, na última valsa,
Enlaçarei à Morte.

S. Quimas

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Publicado por em agosto 6, 2017 em Poesia

 

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Tenho sido outro

Rio

Tenho sido outro
Por toda a minha vida.
Outro que caminha nas ruas,
Um outro qualquer.
Tenho sido mais um outro,
Para quaisquer todos os outros,
Que na minha vida insignificante,
Não passam de transeuntes,
Numa estrada sem razão.
(Nenhuma filosofia, doutrina, religião
Há de me confortar
Em minha descabida ausência de mim mesmo).
Nos cumprimentamos e fazemos mesuras.
Gestos banais,
Vazios incomensuráveis,
De não reconhecimento,
Ou de nos reconhecermos assim: outros.

S. Quimas

 
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Publicado por em junho 2, 2017 em Poesia

 

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Não reconheço governo nenhum

Planeta Saturno

Planeta Saturno

Não reconheço governo nenhum,
Nem o de mim sobre mim mesmo.
Sou cidadão de todas as sensações que vivo,
De toda a idiossincrasia,
Sem rótulos, sem guaritas e medos abomináveis.
Não me precavi de mergulhos em abismos,
Somente me arremessei
E dei asas à vida
Sem ter qualquer certeza que as possuía.
Fiz de todo o fado delírio,
Fiz de quimeras e carrancas
O doce dos versos e de todas as visões.
Vivi e, assim por completo,
O que a vida me serviu por banquete.
Provei de amarguras, desilusões
E muitas vezes fui servido de pratos vazios.
Porém, vivi por completo
Mesmo toda a inexistência.
Não há em mim dor,
Mas por não sê-la
Dói-me tão intensamente
Quanto o parto de miríades de estrelas,
Explosão de luz na escuridão.
Queria ter sido muita coisa,
Ou apenas realizar,
Não que eu seja ou fosse o que faria,
Minha mão não é a semente
Que semeio no campo,
Contudo, jamais vou afirmar
Que não me transvista de tudo o que vivo
E que a tudo não incorpore.
Resta a poesia.
Ah, essa louca droga
Que me vicia e da qual não me desapego!
A ela eu não rejeito:
Que me sirvam os deuses pela Eternidade.
Agora me calo.
Cerro minha fala.
Não digo nada além,
Pois só quero tão somente
Uma vez mais me perder em sonhos.

S. Quimas

 

 
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Publicado por em junho 2, 2016 em Poesia

 

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Quero que a maior virtude dos homens

Menino Pensando - Autor desconhecido

Menino Pensando – Autor desconhecido

Quero que a maior virtude dos homens
Seja a imensa compaixão por si mesmos
E da mesma forma pelos demais.
E que, conscientes de suas limitações,
Perdoem-se mutuamente
Na mais absoluta sinceridade
E ajam na mais completa boa vontade.
Quero que se alienem da ganância,
Do egoísmo e de toda ostentação.
Quero a simplicidade,
Quero que toda a angústia passe,
Como se transforma o céu desfazendo nuvens.
Quero que todos os olhos se arregalem
E contemplem profundamente
A grandeza da vida.
Quero e assim desejo, de modo tão profundo,
Como o é todo o abismo celeste,
Que todos sejam capazes de estenderem as mãos
E promover o sonho da paz
E universalizem o amor irrestrito
E cooperar nas mínimas coisas.
Quero muito, talvez demais.
Dizem uns: utopia…
Pois quero exatamente tudo isso,
Por mais insano que seja,
Por mais sonho que tenha imaginado.
Eu sei que é possível,
Pois hoje eu vi uma flor
Nascer em meio ao calçamento.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 25, 2016 em Poesia

 

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Gosto das pessoas que escrevem marcando fundo o papel da vida

Velho Mendigo - Vasily Tropinin - 1823

Velho Mendigo – Vasily Tropinin – 1823

Gosto das pessoas que escrevem
Marcando fundo o papel da vida,
Daquelas que não têm temor
Pela irreverência e se expor por completo,
Das que sacodem a poeira e seguem,
Sem se reter se o cão lhes morde o traseiro.
Tenho me fascinado mais pelos loucos,
Por aqueles desacreditados
Pelas certezas e absolutos da sociedade.
Possa ser que ruminem o próprio vômito,
Mas jamais se banqueteiam
Nas fezes do clichê da conformação.
Não me interesso pelos pudicos,
Pelos estereotipados,
Por aqueles que perderam a capacidade de surpreender,
De renovar-se e transformar tudo à volta.
Não acredito naqueles que se consideram pobres,
Pois a maior de todas as riquezas é a vida
E toda imensa e tamanha história que se possa viver.
Não há romance maior do que tudo que se viva
E se possa escrever pela própria pena.
Gosto das pessoas límpidas, cristalinas,
Ainda que vivam a sombra e dias turvos,
Mas nem por isso deixam de seguir o rio
De sua existência, ainda que serpenteando
Pelas terras de suas dores e desilusões sem fim.
Gosto de pessoas que se alegram
Ou choram como crianças,
Que se dão por completo ao sentimento,
A emoção própria de cada momento,
Que sejam capazes de resguardar
Ainda dentro de si alguma inocência.
Gosto de pessoas
Que ainda possam ser
Humanas.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 23, 2016 em Poesia

 

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Divagação

NGC 602

Pomos traços entre as estrelas
E chamamos a isso constelação.
Pomos o mesmo
Entre nossos momentos
E a isso chamamos recordação.
Temos essa tendência de aprisionar,
De compartimentar,
De nos apegarmos assim
À imensa ilusão de que se desse modo fizermos
Tudo será estável,
Nada nos escapará
E a vida não escoará como água por entre nossos dedos.
Eu tenho vivido tempo bastante
Para saber da inutilidade de todas as coisas
E que tudo isso que semeamos
Não passa de apenas de um brinquedo,
Um mero passatempo,
Um jogo de palavras-cruzadas.
Tanta responsabilidade e seriedade,
Tanta sisudez…
Para quê?
Tudo se esvai num suspiro.
Melhor viver embriagado de todo o agora,
Do que lúcido de memórias.
O que tenhamos vivido é somente contemplativo,
O que nós é vida de fato
É a imponderabilidade e o incerto instante
Do que de fato vivemos. Agora.
Eu sempre fui vizinho da morte,
Mas no leito de minhas paixões
Sempre coabitei com a vida.
Parecia-me mais razoável que fosse,
Apesar de que a morte também me seduzisse.
Porém, a vida tinha lá uma coisa
Que sei lá! Era a vida…
Tenho me cansado de todo o fado,
Pois a vida me tem sido amante exigente
E me esgota o entendimento e o corpo,
Furta-me a mim mesmo
E me soma mais dores
Do que orgasmos.
Já precinto que é amante leviana
E que me há de abandonar repentinamente,
Não deixará sequer bilhete,
Irá assim me abandonar pura e simplesmente,
Certa de que fez,
Como qualquer prostituta,
O melhor serviço.
O preço que eu paguei?
Não foi barato.
De fato,
Tudo:
Ter existido.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 6, 2016 em Poesia

 

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Não me digam o que eu tenho que ser

Falcão ataca uma lebre
Não me digam o que eu tenho que ser,
Não me falem de suas supostas soluções
Para a única coisa que só me pertence:
A minha vida.
Todos têm soluções para tudo
E não aplicam à sua própria existência.
Se são tão fantásticas,
Por que dizem da infelicidade do mundo?
Se o mundo é absurdo
É porque permanecem na crença
De suas próprias soluções
E não vivem simplesmente a vida.
Arrastam numa carga imensa
Quimeras de sonhos e razões.
Quem já andou na rua e parou
Bem assim junto ao meio-fio?
Ali, simplesmente sentou
E simplesmente admirou uma flor pequenina?
Eu já. Fiquei horas.
Porém, eu sou insano,
A vida existe para os retos
E toda a minha é mais curva
Que a Terra.
Pessoas caminham por aí,
Mas não são seres,
Não são existência,
São apenas o que são.
Um dito sem frase,
Sem pontuação,
Uma controvérsia
Cheia de crenças,
De dizeres,
Uma balbúrdia e Babel
Infinita.
No metabolismo das coisas que do mundo ingiro,
Não restam senão fezes.
Delas nada se aproveita.
São somente contaminação.
Queria uma poesia suave,
Agradável ao ouvido,
Mas não.
Tudo é fardo, falência,
Desassossego.
Replico lamúrias
E já não sei se escrevo mais
Ou paro.
Simplesmente silencio minha voz.
Há os que tecem fios de ternura.
Sei ser brando
E até me aventuro em sonhos.
A realidade choca,
Essa desse mundo tacanho,
Não a que percebo além.
Demoro em meus versos,
Pois o que faço não é poesia
É somente agonia e grito,
Escândalo de minha alma
A alertar ao mundo o meu absurdo
De apenas ainda somente viver.
Um dia,
Serei sereno,
Um dia,
Quem sabe?
Quem sabe se minha poesia seja flor.
Nasça dessa toda podridão que inunda a tudo
E ela lhe sirva como esterco.
Só canso
E ainda assim sigo.

S. Quimas

 
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Publicado por em maio 2, 2016 em Poesia

 

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