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Menino

Meninos soltando pipa (1941) - Candido Portinari

Meninos soltando pipa (1941) – Candido Portinari

Ali, longe no caminho
De minhas todas e imensas recordações,
Reencontrei com o menino que fui
E ele sorriu para mim,
Com aquele jeito impertinente
De menino matreiro,
Que a tudo conquista
E faz se render até a mais profunda tristeza.
Depois o menino que fui
Deu-me um abraço,
Aquele carregado de sentimento,
Que só a pureza de uma criança sabe dar.
Eu, agachado, tomou a minha face entre as suas mãos
E olhou fundo em meus olhos
E me beijou. E foi-se.
Nada me disse,
Sequer olhou para trás e foi se indo.
E seguiu caminhando pela estrada
Repleta de imensas promessas,
Ladeada por canteiros de belas esperanças.
Caminhava rápido, resoluto,
Fincando o pé em suas certezas
E em todos os seus acalentados desejos.
De súbito, o menino para
E vejo que chora. Não entendi o motivo,
A estrada era linda,
O sol brilhava
E as nuvens no céu
Imitavam os carneirinhos
De sua imensa imaginação.
Por que será o pranto?
Vi, mesmo ao longe,
Um papel qualquer em sua mão,
Não percebi que o recolhera do chão.
De repente, o menino, resoluto,
Esfregou a manga de sua camisa
Contra o rosto e recolheu
Todas as suas lágrimas e partiu
Em passos ainda mais apressados.
De lá longe,
O vento soprou
E com ele carregou o papel,
Atirado ao chão novamente
Pelo menino que fui.
Pousou, assim, lentamente,
Como a paina que se desprega da árvore,
Junto a mim.
Curvei-me e tomei em minhas mãos o dito papel.
Nele escrito em letras pequeninas:
“Menino, sei de tuas andanças e sonhos,
Sei de tuas esperanças, de teus maiores desejos,
Sei da calma da vida e da ilusão do tempo,
Que quando menino parece se alongar.
Sei de muita coisa,
Se é que o que sei valha algo maior
Do que tudo imensamente
Que tu és em sua imensa simplicidade.
Sei de tuas pipas,
Do teu sonho imenso de voar.
Se pudesse dar-te-ia asas.
(Quisera ser Deus
Para fazer-te eternamente anjo).
Sei de muito
E o que sei parece nada
Perto da tua fome de saber.
Não encontrei a resposta
Ao mundo e nem aquela
Que resolva a mim mesmo.
Por isso, recaminho em mim a estrada,
Só para te reencontrar,
Ainda que seja apenas sonho
E de todo imensa imaginação,
Mas queria aquele teu abraço,
Aquele teu beijo,
Queria sentir
Ao menos alguns momentos
A mim mesmo”.
E o menino se foi….

S. Quimas

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Publicado por em abril 4, 2016 em Poesia

 

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Há um canto em mim

Namastê!

Namastê!

 

Há um canto em mim
Que ninguém conhece.
É assim como um jardim:
Flores aqui, outras ali,
Enfim, algo que encanta.
Existem ali também muitas palmeiras,
Uma via entremeadas delas,
Par a par.
Tem um lago onde patos e cisnes nadam
Despercebidos de toda a complexidade
Da vida. Somente nadam e por vezes
Alguma outra coisa,
Que só se vendo se saberá com certeza
O que exatamente é.
Há árvores floridas nesse canto,
Umas mais belas que outras,
Não sei precisar qual delas,
Amo-as todas.
Nesse pequeno espaço
Que há mim cabe a imensidão de um mundo inteiro.
Lá vejo uma praia e o mar,
As ondas quebrando,
A areia branca,
Que muitas vezes ferve.
Os pássaros em rebuliço
Escandalizando com seus muito gritos.
Nesse cantinho
O que há em mim de maior
Sobrevive a tudo o que há de grandioso
E mais mesquinho no mundo.
Ali guardo todos os meus menores
E também meus maiores sonhos.
Assim como a brincadeira de se esconder
Os ovos de Páscoa.
Estão todos eles lá semeados,
Ocultos na relva
Que habita o jardim.
Lá nisso tudo,
Perambula um menino,
Esse menino sou eu.
Não é de grande estatura,
É bem pequeno,
Tão pequeno quanto a grandeza imensa
De todos os seus mais caros sonhos.
Ah! Porque sonhar
Sabe mais do que todos os meninos.
Advinha nas nuvens coisas que jamais viram os olhos,
Sua alma habita toda a imensa possibilidade,
Arremessa-se ao infinito
E colhe luzes entre as estrelas.
Para o menino não há escuridão,
Pois como seria escuridão
O que o tempo haverá de consumir?
Ele não se preocupa exatamente com coisa nenhuma.
Sua vida é sorrir e brincar.
Não traz mágoas,
Pois não teve ainda tempo de vivê-las.
Tudo em si é música,
Tudo de uma harmonia imensa.
Mas fora do seu cantinho,
Tudo é sombra.
O menino jamais rompe a fronteira
De sua infinda infância.
Faz assim,
Transforma a dor de cada momento
Em poesia.

S. Quimas

 
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Publicado por em março 9, 2016 em Poesia

 

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